REsp 2200616 - DECISAO
Foram indeferidos os pedidos preliminares porque a decretação de liquidação extrajudicial não autoriza, por si só, a suspensão do processo e a simples demonstração de liquidação não comprova hipossuficiência para concessão da justiça gratuita. No mérito, o Tribunal manteve a conclusão de abusividade dos juros...
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- Parties
- Recorrente: PORTOCRED S.A. - CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO (EM LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL)
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 10 April 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento/decisão De Mérito Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Conheço em parte do recurso especial e nego-lhe provimento; indeferidos os pedidos de suspensão do processo e de concessão da assistência judiciária gratuita; majorados honorários advocatícios em 10%
- Legal Topics
- Revisão De Taxas De Juros, Liquidação Extrajudicial, Assistência Judiciária Gratuita, Ônus Da Prova, Aplicação De Súmulas Do STJ
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Parties
PORTOCRED S.A. - CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO (EM LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL)
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento/decisão De Mérito Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 suspensão do processo em razão de liquidação extrajudicial
- 2 concessão de justiça gratuita a pessoa jurídica
- 3 alegada negativa de prestação jurisdicional (arts. 489 e 1.022 do CPC)
Ratio Decidendi
Foram indeferidos os pedidos preliminares porque a decretação de liquidação extrajudicial não autoriza, por si só, a suspensão do processo e a simples demonstração de liquidação não comprova hipossuficiência para concessão da justiça gratuita. No mérito, o Tribunal manteve a conclusão de abusividade dos juros remuneratórios porque a instituição financeira não comprovou fatos ou elementos específicos (custo de captação, spread, risco de crédito) que justificassem as taxas pactuadas; diante da ausência desses documentos indispensáveis e da vulnerabilidade informacional, a Corte de origem limitou os juros à taxa média de mercado, decisão que não comporta reexame fático-probatório em recurso...
Court Disposition
Conheço em parte do recurso especial e nego-lhe provimento; indeferidos os pedidos de suspensão do processo e de concessão da assistência judiciária gratuita; majorados honorários advocatícios em 10%
Orders
- Indefiro o pedido de suspensão do processo nos termos do art. 18 da Lei n. 6.024/1974.
- Indefiro o pedido de concessão da assistência judiciária gratuita à pessoa jurídica.
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DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por PORTOCRED S.A. - CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO (EM LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL), com fundamento no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, contra acórdão prolatado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul em ape lação nos autos de ação revisional de contrato de empréstimo pessoal consignado. A recorrente, preliminarmente, defende a suspensão do processo nos termos do art. 18 da Lei n. 6.024/1974, tendo em vista a decretação de sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central. Alternativamente, pugna pela assistência judiciária gratuita, argumentando que o recolhimento das custas poderá comprometer significativamente sua saúde financeira. O julgado foi assim ementado (fl. 1.014): JUÍZO DE RETRATAÇÃO EM APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. AÇÃO REVISIONAL. TAXA DE JUROS. EXCEPCIONALIDADE DA ABUSIVIDADE CONFIGURADA NO CASO CONCRETO. FIXAÇÃO DA TAXA MÉDIA DE MERCADO. Conforme entendimento firmado pelo STJ no julgamento do REsp 1.061.530/RS, realizado sob a sistemática dos recursos repetitivos, faz-se admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade, capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada, fique cabalmente demonstrada, ante às peculiaridades do julgamento em concreto, hipótese dos autos. APELO DA RÉ DESPROVIDO EM JUÍZO DE RETRATAÇÃO. No recurso especial, a parte recorrente aponta violação dos seguintes artigos: a) 51, IV e § 1º, do CDC, porque a liberdade contratual deve ser exercida nos limites da função social do contrato, sendo a revisão contratual uma exceção, razão pela qual deve ser utilizada apenas em casos de comprovação de abusividade, o que não ocorreu no caso concreto; b) 489, § 1º, III, IV e VI, e 1.022, II, do CPC, uma vez que o acórdão recorrido, em preclusão hierárquica, manteve a abusividade dos juros sem analisar as particularidades do caso concreto. Sustenta a inexistência de abusividade dos juros remuneratórios, porquanto não se justifica sua limitação à taxa média de mercado. Afirma ainda que a abusividade dos juros remuneratórios foi constatada mediante simples cotejo com a taxa média de mercado publicada pelo Bacen, sem análise individualizada das peculiaridades do caso concreto, contrariamente ao decidido no REsp n. 1.061.530/RS. Requer a reforma do acórdão para que se declarem válidas as cláusulas que estipulam a cobrança dos juros remuneratórios e demais encargos, com sua consequente manutenção nos percentuais estabelecidos pelas partes. Pleiteia ainda a imposição dos ônus de sucumbência exclusivamente à parte recorrida caso a demanda seja provida. Contrarrazões não foram apresentadas. Inadmitido o recurso especial na origem, o agravo em recurso especial apresentado foi convertido em recurso especial. É o relatório. Decido. O recurso não merece prosperar. I - Pedido de suspensão A respeito da suspensão dos processos em decorrência da decretação de liquidação extrajudicial, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmou-se no sentido de que a regra contida no art. 18, a, da Lei n. 6.024/1974 deve ser interpretada com temperamento, afastando-se sua incidência nos processos de conhecimento que buscam obter declaração judicial de crédito, a qual interferirá na formação do título executivo, que será passível de habilitação no processo de liquidação, sem implicar a redução do acervo patrimonial da massa objeto de liquidação (REsp n. 1.298.237/DF, de minha relatoria, Terceira Turma, julgado em 19/5/2015, DJe de 25/5/2015). Assim, não merece acolhimento o pedido de suspensão. II - Assistência judiciária gratuita A concessão do benefício da justiça gratuita a pessoa jurídica não dispensa a prévia comprovação de hipossuficiência, nos termos da orientação do STJ consolidada com a edição da Súmula n. 481. Nessa linha de raciocínio, o Superior Tribunal de Justiça já estabeleceu que a simples decretação de liquidação extrajudicial não tem o condão de, por si só, induzir ao reconhecimento da hipossuficiência financeira da pessoa jurídica (AgInt no AREsp n. 1.978.978/GO, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 25/4/2022, DJe de 29/4/2022). No caso, ausente a apresentação de outros elementos pela instituição financeira que pudessem comprovar sua impossibilidade de pagamento dos encargos processuais, é insuficiente, para tanto, o balanço patrimonial juntado aos autos. Desse modo, não há como deferir o pedido de assistência judiciária gratuita. III - Negativa de prestação jurisdicional Afasta-se a alegada ofensa aos arts. 489 e 1.022 do CPC, porquanto a Corte de origem examinou e decidiu, de modo claro e objetivo, as questões que delimitam a controvérsia, não ocorrendo nenhum vício que possa nulificar o acórdão recorrido. Esclareça-se que o órgão colegiado não está obrigado a repelir todas as alegações expendidas no recurso, pois basta que se atenha aos pontos relevantes e necessários ao deslinde do litígio e adote fundamentos que se mostrem cabíveis à prolação do julgado, ainda que, relativamente às conclusões, não haja a concordância das partes. IV - Juros remuneratórios (violação do art. 51, IV e § 1º, do CDC) No recurso especial, a parte recorrente alega que a liberdade contratual deve ser exercida nos limites da função social do contrato, sendo a revisão contratual uma exceção, razão pela qual deve ser utilizada apenas em casos de comprovação de abusividade, o que não ocorreu no caso concreto. A recorrente afirma que o Tribunal de origem utilizou a taxa média de mercado como único parâmetro para aferir a abusividade dos juros remuneratórios, sem considerar as peculiaridades do caso concreto. Consoante entendimento jurisprudencial do STJ, a limitação da taxa de juros, com base apenas no fato de estar acima da taxa média de mercado, não encontra respaldo na jurisprudência desta Corte, uma vez que devem ser observados diversos fatores para a revisão da taxa de juros, tais como o custo de captação dos recursos, o spread da operação, a análise de risco de crédito do contratante, ponderando-se a caracterização da relação de consumo e eventual desvantagem exagerada do consumidor. Confira-se trecho do acórdão recorrido (fls. 1.012-1.013, destaquei): In casu, os juros contratados destoaram da taxa média de mercado estabelecida pelo BACEN, já que, da averiguação dos contratos: nº 3801323701 (firmado em 27/11/2012), encontra-se a taxa pactuada de 7,25% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,73% a. m.; nº 3801332841 (firmado em 13/12/2012), encontra-se a taxa pactuada de 7,25% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,71% a. m.; nº 3801353660 (firmado em 28/01/2013), encontra-se a taxa pactuada de 7,25% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,70% a. m.; nº 3801376288 (firmado em 15/03/2013), encontra-se a taxa pactuada de 7,25% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,73% a. m.; nº 3801654501 (firmado em 27/05/2014), encontra-se a taxa pactuada de 6,00% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,78% a. m.; nº 3801835800 (firmado em 10/12/2014), encontra-se a taxa pactuada de 6,00% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,81% a. m.; nº 3801892490 (firmado em 13/02/2015), encontra-se a taxa pactuada de 6,00% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,86% a. m.; nº 3802614917 (firmado em 26/09/2016), encontra-se a taxa pactuada de 5,43% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 2,04% a. m.; nº 3802654581 (firmado em 06/10/2016), encontra-se a taxa pactuada de 5,93% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 2,05% a. m.; nº 3803417619 (firmado em 22/09/2017), encontra-se a taxa pactuada de 5,94% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,90% a. m.; e nº 3803433196 (firmado em 29/09/2017), encontra-se a taxa pactuada de 5,93% a. m, sendo que a média divulgada para o período de formalização contratual foi de 1,90% a. m. .. De qualquer sorte, evidências concretas no sentido alegado não vieram à colação, valendo dizer que teriam de vir, de forma pormenorizada, o perfil de risco do contratante e ainda de forma prévia à contratação. Com essas considerações, não apenas levando como parâmetro a diferença entre as taxas de juros contratadas e aquelas divulgadas pelo BACEN quanto aos juros remuneratórios, mas por constatar a vulnerabilidade informacional, bem assim diante da impossibilidade desta Corte de Justiça adentrar no exame pormenorizado em todos os documentos indispensáveis ao deslinde exemplar do feito, afastando-se de sua primordial função de análise do conjunto fático-probatório, porque os documentos indispensáveis não vieram à colação, a exemplo de parâmetros concretos e de aplicabilidade individualizada, tais como o custo de captação de recursos, o risco de crédito ao tomador e o nível do lucro operacional (spread), faz-se assente que os juros remuneratórios deverão ser limitados à média de mercado, conforme reiterados julgados desta Corte. Observa-se que a Corte de origem, soberana na análise do arcabouço fático-probatório dos autos, não se limitou a afirmar que a taxa de juros remuneratórios fora pactuada acima da taxa média de mercado estipulada pelo Bacen, tendo consignado que a instituição financeira não se desonerara do ônus que lhe competia de comprovar circunstâncias específicas que justificassem a taxa de juros praticada no contrato, tais como o custo de captação dos recursos, o spread da operação e a análise de risco de crédito do contratante. Além disso, caberia à ré o ônus de demonstrar a ocorrência de fatos modificativos, impeditivos ou extintivos do direito da parte autora. A propósito: AgInt no AREsp n. 2.391.820/GO, de minha relatoria, Quarta Turma, julgado em 9/9/2024, DJe de 12/9/2024. Assim, adotando a jurisprudência do STJ, o Tribunal concluiu pela abusividade dos juros remuneratórios previstos contratualmente, em análise das peculiaridades do caso concreto, razão pela qual os limitou à taxa média de mercado estabelecida pelo Bacen. É caso, pois, de aplicação da Súmula n. 83 do STJ. Ademais, para decidir em sentido contrário e verificar os fatores acima apontados acerca das peculiaridades do caso concreto quanto aos juros pactuados, seria necessário reexaminar o instrumento contratual e o conjunto fático-probatório dos autos, procedimento vedado na via do recurso especial (Súmulas n. 5 e 7 do STJ). Nesse sentido: AgInt no AREsp n. 2.437.350/RS, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 27/11/2023, DJe de 30/11/2023. V - Divergência jurisprudencial Quanto ao apontado dissídio, ressalte-se que a incidência das Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ no tocante à interposição pela alínea a do permissivo constitucional impede o conhecimento do recurso especial pela divergência jurisprudencial sobre a mesma questão. Nesse sentido: AgInt no AREsp n. 1.898.375/RS, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 27/6/2022, DJe de 30/6/2022; e AgInt no AREsp n. 1.611.756/GO, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 29/8/2022, DJe de 1º/9/2022. VI - Conclusão Ante o exposto, indefiro os pedidos de suspensão do processo e de concessão da assistência judiciária gratuita, formulados em preliminar. No mérito, conheço em parte do recurso especial e, nessa extensão, nego-lhe provimento. Nos termos do § 11 do art. 85 do CPC, majoro, em 10% sobre o valor já arbitrado nas instâncias de origem, os honorários advocatícios em desfavor da parte ora recorrente, observados, se aplicáveis, os limites percentuais previstos no § 2º do referido artigo e ressalvada eventual concessão de gratuidade de justiça. Publique-se. Intimem-se. EMENTA