AREsp 2557942 - DECISAO
O Tribunal entendeu que o acórdão recorrido está em consonância com a orientação do STJ de que a taxa média do Banco Central é um referencial e não um limite absoluto; que a abusividade dos juros exige prova cabal de excessividade do lucro ou desequilíbrio contratual; e, por isso, não há divergência jurisprudencial...
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- Parties
- Agravante: PORTOCRED S/A - CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO; Agravada: Cleci dos Santos Ferreira
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 March 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Revisional De Contrato Bancário, Juros Remuneratórios, Abusividade, Taxa Média Do Banco Central, Súmula 83/stj, Recurso Especial
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Parties
PORTOCRED S/A - CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO
Agravante
Cleci dos Santos Ferreira
Agravada
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Divergência sobre a interpretação do art. 51, §1º, III, do CDC quanto ao controle revisional judicial da cláusula de juros remuneratórios
- 2 Se a taxa média divulgada pelo Banco Central constitui parâmetro absoluto para aferir abusividade dos juros remuneratórios
- 3 Aplicabilidade das Súmulas 5, 7 e 83/STJ quanto à inadmissibilidade do recurso especial e vedação ao reexame fático-probatório
Ratio Decidendi
O Tribunal entendeu que o acórdão recorrido está em consonância com a orientação do STJ de que a taxa média do Banco Central é um referencial e não um limite absoluto; que a abusividade dos juros exige prova cabal de excessividade do lucro ou desequilíbrio contratual; e, por isso, não há divergência jurisprudencial capaz de amparar o recurso especial, de modo que o agravo foi conhecido e o recurso especial negado provimento, incidindo as Súmulas 5, 7 e 83/STJ conforme o caso.
Court Disposition
Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
Orders
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- Publique-se.
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DECISÃO Trata-se de agravo em recurso especial desafiando decisão que não admitiu recurso especial interposto por PORTOCRED S/A - CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO - com fundamento no art. 105, III, c, da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, assim ementado (e-STJ Fl. 501): "APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO BANCÁRIO. INDEFERIMENTO DOS PEDIDOS DE SUSPENSÃO DO FEITO E CONCESSÃO DA GRATUIDADE FORMULADOS EM CONTRARRAZÕES. EMPRÉSTIMO PESSOAL CONSIGNADO PARA TRABALHADOR DO SETOR PÚBLICO. TAXAS DE JUROS REMUNERATÓRIOS. LIMITAÇÃO À MÉDIA DIVULGADA PELO BACEN PARA A MESMA MODALIDADE E PERÍODO DA CONTRATAÇÃO. UTILIZAÇÃO DOS PERCENTUAIS APONTADOS PELO AUTOR NA INICIAL, PARA FINS DE LIMITAÇÃO DAS TAXAS, SOB PENA DE JULGAMENTO ULTRA PETITA. ADMITIDA A REPETIÇÃO DE INDÉBITO, NA FORMA SIMPLES. RECURSO PROVIDO." Não foram opostos embargos de declaração. Nas razões do recurso especial, sustenta a recorrente, ora agravante, que o Tribunal a quo divergiu da interpretação dada ao art. 51, §1º, III, do CDC, relativamente ao controle revisional do Poder Judiciário acerca de cláusula contratual sobre taxa de juros remuneratórios. As contrarrazões ao recurso especial foram apresentadas a fls. 768/777. O referido recurso não foi admitido, por se entender, essencialmente, incidente, na espécie, a Súmula 83/STJ. Daí porque foi interposto o presente recurso. A seguir, vieram os autos conclusos a este Relator. É o relatório. Passo a decidir. O recurso especial tem origem em ação revisional ajuizada por Cleci dos Santos Ferreira, ora agravada, em que pretende a revisão de cláusulas contratuais de mútuo bancário, visando reduzir encargos que entende estarem abusivos e em desacordo com a legislação vigente, cujo pedido foi julgado procedente. A parte recorrente, ora agravante, busca demonstrar existência de dissídio jurisprudencial em torno da não abusividade da cláusula contratual que estipulou os juros remuneratórios do contrato de mútuo bancário firmado entre as partes. No caso, o Tribunal a quo afirmou que a parte autora da ação revisional demonstrou que os juros remuneratórios incidentes sobre o contrato, são superiores à média de mercado divulgada pelo BACEN. Todavia, não utilizou essa média de mercado como único parâmetro para o julgamento do tema. Confira-se o entendimento do Tribunal a quo, in verbis (e-STJ Fl. 506): "Assim, tem-se que os juros remuneratórios contratados foram fixados em patamar muito superior à média praticada pelo mercado. Por outro lado, recordo que o autor, na petição inicial, postulou a limitação das taxas em 2,25% ao mês e 30,67% ao ano, com base nas séries 20746 e 25468, vinculadas à taxa média de juros das operações de crédito com recursos livres - Pessoas Físicas - Crédito Pessoal Consignado para aposentados e pensionistas do INSS (evento 1, EXTR6). Necessário ressaltar que mesmo em se tratando a autora de pensionista, não se aplica a modalidade de Crédito Pessoal Consignado para Aposentados e Pensionistas do INSS, na medida em que a fonte pagadora, na hipótese em concreto, é o IPERGS, devendo as operações creditícias ser enquadradas na modalidade de Crédito Pessoal Consignado para Trabalhadores do Setor Público." Deveras, a taxa média de mercado apurada pelo Banco Central é usada como referência no exame da abusividade dos juros remuneratórios, mas não constitui valor absoluto a ser adotado em todos os casos. Nesse sentido: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL. EMBARGOS À EXECUÇÃO. JUROS REMUNERATÓRIOS. TAXA MÉDIA. SÚMULA N. 83/STJ. ABUSIVIDADE NÃO CONSTATADA. REEXAME DO CONTRATO E DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. INADMISSIBILIDADE. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. DECISÃO MANTIDA. 1. A taxa média de mercado apurada pelo Banco Central para operações similares, na mesma época do empréstimo, pode ser usada como referência no exame da abusividade dos juros remuneratórios, mas não constitui valor absoluto a ser adotado em todos os casos. 2. O recurso especial não comporta o exame de questões que impliquem interpretação de cláusula contratual ou revolvimento do contexto fático- probatório dos autos, a teor do que dispõem as Súmulas n. 5 e 7 do STJ. 3. O Tribunal de origem, mediante a análise da prova dos autos e os parâmetros definidos no Recurso Especial Repetitivo n. 1.061.530/RS a respeito dos juros remuneratórios em contratos bancários, afastou a alegação de abusividade da taxa cobrada. Desse modo, a alteração do desfecho conferido ao processo atrai o óbice das mencionadas súmulas. 4. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 2155365/MG, Rel. Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 12/12/2022, DJe de 15/12/2022) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL. SIMILITUDE FÁTICA NÃO DEMONSTRADA. SÚMULAS 5 E 7 DO STJ. PREJUDICADO. JUROS REMUNERATÓRIOS. ABUSIVIDADE. HARMONIA ENTRE O ACÓRDÃO RECORRIDO E A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. 1. Ação de revisão de contrato de empréstimo consignado. 2. O dissídio jurisprudencial deve ser comprovado mediante o cotejo analítico entre acórdãos que versem sobre situações fáticas idênticas. 3. A incidência das Súmulas 5 e 7 do STJ prejudica a análise do dissídio jurisprudencial pretendido. Precedentes desta Corte. 4. Os juros remuneratórios incidem à taxa média de mercado em operações da espécie, apurados pelo Banco Central do Brasil, quando verificada pelo Tribunal de origem a abusividade do percentual contratado. Precedente Repetitivo da 2ª Seção. 5. Para que se reconheça abusividade no percentual de juros, não basta o fato de a taxa contratada suplantar a média de mercado, devendo-se observar uma tolerância a partir daquele patamar, de modo que a vantagem exagerada, justificadora da limitação judicial, deve ficar cabalmente demonstrada em cada caso, à luz do caso concreto. Precedentes. 6. Agravo interno no agravo em recurso especial não provido. (AgInt no AREsp 2186885/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 5/12/2022, DJe de 7/12/2022) Reforce-se que, ao julgar o recurso representativo da controvérsia, que pacificou a questão acerca da índole abusiva dos juros remuneratórios (REsp 1.061.530/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 22/10/2008, DJe de 10/3/2009), a em. Ministra Relatora consignou, no que toca ao parâmetro a ser considerado para se inferir se os juros contratados são abusivos ou não, o seguinte: "Descartados índices ou taxas fixos, é razoável que os instrumentos para aferição da abusividade sejam buscados no próprio mercado financeiro. Assim, a análise da abusividade ganhou muito quando o Banco Central do Brasil passou, em outubro de 1999, a divulgar as taxas médias, ponderadas segundo o volume de crédito concedido, para os juros praticados pelas instituições financeiras nas operações de crédito realizadas com recursos livres (conf. Circular nº 2957, de 30.12.1999). .. A taxa média apresenta vantagens porque é calculada segundo as informações prestadas por diversas instituições financeiras e, por isso, representa as forças do mercado. Ademais, traz embutida em si o custo médio das instituições financeiras e seu lucro médio, ou seja, um "spread" médio. É certo, ainda, que o cálculo da taxa média não é completo, na medida em que não abrange todas as modalidades de concessão de crédito, mas, sem dúvida, presta-se como parâmetro de tendência das taxas de juros. Assim, dentro do universo regulatório atual, a taxa média constitui o melhor parâmetro para a elaboração de um juízo sobre abusividade. Como média, não se pode exigir que todos os empréstimos sejam feitos segundo essa taxa. Se isto ocorresse, a taxa média deixaria de ser o que é, para ser um valor fixo. Há, portanto, que se admitir uma faixa razoável para a variação dos juros. A jurisprudência, conforme registrado anteriormente, tem considerado abusivas taxas superiores a uma vez e meia (voto proferido pelo Min. Ari Pargendler no REsp 271.214/RS, Rel. p. Acórdão Min. Menezes Direito, DJ de 04.08.2003), ao dobro (Resp 1.036.818, Terceira Turma, minha relatoria, DJe de 20.06.2008) ou ao triplo (REsp 971.853/RS, Quarta Turma, Min. Pádua Ribeiro, DJ de 24.09.2007) da média. Todavia, esta perquirição acerca da abusividade não é estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os juros contratados foram ou não abusivos." Vê-se, assim, que a circunstância de a taxa de juros remuneratórios, praticada pela instituição financeira, exceder a taxa média de mercado, não induz, por si só, à conclusão de cobrança abusiva, consistindo a referida taxa em um referencial a ser considerado, e não em um limite que deva ser necessariamente observado pelas instituições financeiras, tal como entendeu o eg. Tribunal de origem. Reitere-se que, para considerar aviltantes os juros remuneratórios praticados, é imprescindível que se proceda à demonstração cabal de sua natureza abusiva, em cada caso específico. Acerca do tema, mostra-se oportuna, ainda, a transcrição de trecho de voto proferido pelo saudoso Ministro Carlos Alberto Menezes Direito (REsp 271.214/RS, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, Rel. p/ acórdão Ministro CARLOS ALBERTO MENEZES DIREITO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 12/3/2003, DJ de 4/8/2003, p. 216), em que, após realizar explanação bastante elucidativa acerca dos fatores implicados no cálculo da taxa de juros praticada, concluiu que: "Com efeito, a limitação da taxa de juros em face de suposta abusividade somente teria razão diante de uma demonstração cabal da excessividade do lucro da intermediação financeira, da margem do banco, um dos componentes do spread bancário, ou de desequilíbrio contratual. A manutenção da taxa de juros prevista no contrato até o vencimento da dívida, portanto, à luz da realidade da época da celebração do mesmo, em princípio, não merece alterada à conta do conceito de abusividade. Somente poderia ser afastada mediante comprovação de lucros excessivos e desequilíbrio contratual, o que, no caso, não ocorreu." Dessa forma, o acórdão recorrido se mostra em sintonia à orientação do Superior Tribunal de Justiça, recaindo ao recurso especial a Súmula 83/STJ. Diante do exposto, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. E, quanto ao ônus da sucumbência recursal, em observância ao art. 85, §11, do CPC/2015, majoro os honorários de advogado em mais R$350,00. Publique-se. EMENTA