HC 980910 - DECISAO
A aplicação retroativa da redação mais gravosa do § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, dada pela Lei n. 14.843/2024, constitui novatio legis in pejus e não pode ser aplicada para prejudicar o condenado que já havia obtido a concessão de saídas temporárias; assim, o acórdão que revogou tal benefício com base...
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- Parties
- Paciente: JOANIR CAMPOS; Órgão Recorrido: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA; Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 February 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão (concessão Da Ordem E Não Conhecimento)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus. Concedo a ordem, de ofício, para cassar o acórdão do Tribunal de Justiça e determinar o restabelecimento da decisão anteriormente proferida pelo juízo da execução penal.
- Legal Topics
- Saídas Temporárias, Retroatividade, Novatio Legis in Pejus, Irretroatividade Da Lei Penal Mais Gravosa, Aplicação Imediata Da Lei N. 14.843/2024
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Parties
JOANIR CAMPOS
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Órgão Recorrido
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Recorrente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão (concessão Da Ordem E Não Conhecimento)
Legal Issues
- 1 possibilidade de aplicação retroativa da Lei n. 14.843/2024 às saídas temporárias
- 2 se a revogação do deferimento de saídas temporárias pode subsistir com base apenas na retroatividade da nova lei
- 3 se o habeas corpus pode ser conhecido quando substitutivo de recurso próprio
Ratio Decidendi
A aplicação retroativa da redação mais gravosa do § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, dada pela Lei n. 14.843/2024, constitui novatio legis in pejus e não pode ser aplicada para prejudicar o condenado que já havia obtido a concessão de saídas temporárias; assim, o acórdão que revogou tal benefício com base apenas na retroatividade foi cassado e determinado o restabelecimento da decisão do juízo da execução penal.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus. Concedo a ordem, de ofício, para cassar o acórdão do Tribunal de Justiça e determinar o restabelecimento da decisão anteriormente proferida pelo juízo da execução penal.
Orders
- Não conheço do habeas corpus.
- Concedo a ordem, de ofício, para cassar o acórdão do Tribunal de Justiça e determinar o restabelecimento da decisão anteriormente proferida pelo juízo da execução penal.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado em benefício de JOANIR CAMPOS contra julgado proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA (agravo em execução nº 8000745-56.2024.8.24.0033/SC). Consta dos autos que o paciente obteve o seu direito a saídas temporárias, o que foi cassado pelo TJ após recurso do MP, em razão da necessidade de aplicação imediata da Lei n. 14.843/2024. Neste habeas corpus, a defesa busca o reconhecimento de que se preencheram todos os requisitos legais para a saída temporária. Assevera que nada existe que desabone a conduta do paciente, possuindo lapso necessário para a saída temporária e conduta adequada. Espera, portanto, afastar a aplicação imediata da Lei n. 14.84 3/2024. Requer, inclusive liminarmente, reconhecer o direito às saídas temporárias, com a retificação da execução penal. Tudo a ser confirmado no mérito. É o relatório. DECIDO. A Terceira Seção, no âmbito do HC n. 535.063/SP, de relatoria do Ministro Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/6/2020, e o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do AgRg no HC n. 180.365/PB, de relatoria da Ministra Rosa Weber, julgado em 27/3/2020, consolidaram a orientação de que não cabe habeas corpus substitutivo ao recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Nesse sentido: .. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. .. (AgRg no HC n. 908.122/MT, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 27/8/2024, DJe de 2/9/2024.) .. O habeas corpus não é conhecido quando impetrado em substituição a recurso próprio, salvo em caso de flagrante ilegalidade, conforme jurisprudência pacífica do STJ e do STF. .. (AgRg no HC n. 935.569/SP, de minha relatoria, Quinta Turma, julgado em 3/9/2024, DJe de 10/9/2024.) A controvérsia consiste em se saber se a revogação do deferimento de saídas temporárias, apenas pela retroatividade da Lei n. 14.843/2024, deveria subsistir. Nesse passo, a jurisprudência desta Corte Superior se firmou no sentido de que, para que se afaste o requisito subjetivo das benesses executórias, deve o ser com base nos elementos concretos extraídos da execução, verbis: .. a gravidade abstrata do crime não justifica diferenciado tratamento à progressão prisional, uma vez que fatores relacionados ao delito são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento à negativa da progressão de regime ou do livramento condicional, de modo que respectivo indeferimento somente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução. Precedentes do STJ (HC n. 519.301/SP, Terceira Seção, Rel. Min. Nefi Cordeiro, DJe de 13/12/2019) (AgRg no HC 803.075/SP, Quinta Turma, de minha relatoria, DJe de 31/5/2023, grifei). In casu, o Juízo das Execuções Penais, ao apreciar o pleito de saída temporária formulado em favor do paciente, pronunciou-se pela possibilidade de deferimento, por entender presentes os requisitos legais. Ocorre que, no acórdão a quo, o entendimento que prevaleceu foi o de que a retroatividade plena da Lei n. 14.843/2024 seria possível, de forma a prejudicar o paciente, que antes teve o seu requisito subjetivo comprovado. Vejamos (fls. 33-34): RECURSO DE AGRAVO. EXECUÇÃO PENAL (LEI 7.210/1984, ART. 197). DECISÃO QUE CONCEDEU O DIREITO DE SAÍDA TEMPORÁRIA AO REEDUCANDO PARA VISITA À FAMÍLIA. INSURGIMENTO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA. PLEITEADA REVOGAÇÃO DO DECISUM. PERTINÊNCIA. ANÁLISE FEITA SOB A ÉGIDE DAS NOVAS REDAÇÕES DO § 2º E DOS INCISOS ART. 122 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL OUTORGADA PELA LEI 14.843/2024, DENOMINADA DE LEI SARGENTO PM DIAS, QUE PROIBE O PRESO QUE CUMPRE PENA POR PRATICAR CRIME HEDIONDO OU COM VIOLÊNCIA OU GRAVE AMEAÇA CONTRA PESSOA DE USUFRUIR DO BENEFÍCIO EM QUESTÃO, BEM ASSIM QUE ABOLIOU A PERMISSÃO ATÉ ENTÃO EXISTENTE PARA QUE O AGENTE, INDEPENDEMENTE DA NATUREZA DO DELITO CUJA REPRIMENDA ESTÁ EM EXECUÇÃO, POSSA SE AUSENTAR DO ERGÁSTULO PÚBLICO PARA A FINALIDADE DE ENCONTRAR SEUS FAMILIARES. EXTINÇÃO DA PREVISÃO CONTIDA ANTERIORMENTE NO INCISO I DO REPORTADO ART. 122. RECORRIDO QUE, DENTRE AS PENALIDADES QUE RESGATA, ESTÃO DUAS CONDENAÇÕES PELA PRÁTICA DA INFRAÇÃO PENAL DE TRÁFICO ILÍCITO DE SUBSTÂNCIAS ENTORPECENTES. NORMAS DE PROCESSO PENAL COM APLICAÇÃO IMEDIATA. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO TEMPUS REGIT ACTUM (CÓDIGO DE PROCESSO PENAL, ARTIGO 2º). POSICIONAMENTO DESTA CÂMARA CRIMINAL. PRECEDENTES. PRONUNCIAMENTO REFORMADO. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. Sobre a questão, trago à colação excerto de julgado proferido pelo Min. Otávio de Almeida Toledo, na data de 5/11/2024, nos autos do HC n. 939.570/MG, que bem analisou a matéria da impossibilidade de retroatividade da lei processual penal em casos tais, de acordo com o histórico de julgamentos deste STJ: Nesse sentido, reputo de substancial importância destacar que o Superior Tribunal de Justiça, em mais de uma ocasião, deparou-se com diversas alterações legislativas, as quais, naturalmente, modificaram dispositivos da Lei de Execução Penal ao longo de sua vigência. Em tais ocasiões, esta Corte Superior tem convergido quanto à interpretação a ser conferida a alterações incidentes ao direito fundamental de locomoção, pacificando o entendimento no sentido de que a aplicação de normas dessa natureza, com vigência posterior aos casos pretéritos, impõe respeito ao direito fundamental estabelecido pelo art. 5º, inciso XL, da Constituição da República, segundo o qual, a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu. .. Acresça-se à fundamentação aqui exposta que este Egrégio fixou jurisprudência acerca de casos relativos a outros institutos da execução penal, modificados pela mesma legislação ora em análise (Lei n. 14.836/2024), a exemplo da atual obrigatoriedade da realização de exame criminológico para fins de progressão de regime, sendo essa alteração concebida como norma de natureza penal. Desse modo, a interpretação dada foi no sentido de tratar-se de típico caso de novatio legis in pejus; de modo que se impõe a impossibilidade da aplicação retroativa a fatos anteriores à sua vigência (AgRg no HC n. 888628, relator Ministro Otávio De Almeida, desembargador convocado do TJSP, Sexta Turma, 23/10/2024; RHC n. 200.670/GO, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 20/08/2024, DJe de 23/08/2024). (grifei) No mesmo sentido, manifestação da Sexta Turma deste STJ: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. SAÍDA TEMPORÁRIA. APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI N. 14.843/2024. IMPOSSIBILIDADE. NOVATIO LEGIS IN PEJUS. CONSTRANGIMENTO ILEGAL. ORDEM CONCEDIDA. .. 2. A questão em discussão consiste em verificar a possibilidade de aplicação retroativa do § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, com redação dada pela Lei n. 14.843/2024, que torna mais gravosa a execução da pena, pois veda o gozo das saídas temporárias. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. A Lei n. 14.843/2024, ao modificar o § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, recrudesce a execução da pena ao vedar a concessão de saídas temporárias para condenados por crimes hediondos ou cometidos com violência ou grave ameaça contra pessoa. 4. A aplicação retroativa dessa norma constitui novatio legis in pejus, vedada pela Constituição Federal (art. 5º, XL) e pelo Código Penal (art. 2º). 5. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) firmou entendimento de que normas mais gravosas não podem retroagir para prejudicar o executado, conforme a Súmula 471/STJ e precedentes correlatos. 6. No caso concreto, os crimes pelos quais o paciente foi condenado ocorreram antes da vigência da Lei n. 14.843/2024, o que impede a aplicação retroativa das novas restrições à saída temporária. IV. DISPOSITIVO E TESE 7. Ordem concedida. Tese de julgamento: 1. O § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, com redação dada Lei n. 14.843/2024, torna mais restritiva a execução da pena, restringindo o gozo das saídas temporárias aos condenados por crimes hediondos ou cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, não pode ser aplicado retroativamente a fatos ocorridos antes de sua vigência, em respeito ao princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa. Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 5º, XL; CP, art. 2º; LEP, art. 122, § 2º, com redação dada pela Lei n. 14.843/2024. Jurisprudência relevante citada: STJ, Súmula 471; RHC n. 200.670/GO, Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 23/8/2024; HC n. 373.503/SP, Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, DJe de 15/2/2017; STJ, AgRg no REsp n. 2.011.151/SC, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 13/9/2022 (HC n. 932.864/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 10/9/2024, DJe de 13/9/2024). A corroborar, no âmbito do STF, a decisão nos autos do HC n. 240.770/MG, de relatoria do Min. André Mendonça, proferida em 29/5/2024: .. 17. Assim, entendo pela impossibilidade de retroação da Lei nº 14.836, de 2024, no que toca à limitação aos institutos da saída temporária e trabalho externo para alcançar aqueles que cumprem pena por crime hediondo ou com violência ou grave ameaça contra pessoa no qual se enquadra o crime de roubo , cometido anteriormente à sua edição, porquanto mais grave (lex gravior). Impõe-se, nesse caso, a manutenção dos benefícios usufruídos pelo paciente, ante concessão fundamentada na redação anterior da Lei nº 7.210, de 1984, com alteração da Lei nº 13.964, de 2019. 18. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, porém, concedo a ordem de ofício, nos termos do art. 192 do RISTF, para determinar a manutenção dos benefícios de saídas temporárias e trabalho externo originalmente concedidos no Processo nº 4400307-66.2020.8.13.0134, da Vara de Execuções Penais, de Cartas Precatórias Criminais e do Tribunal do Júri da Comarca de Ipatinga/MG. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. Concedo a ordem, de ofício, para cassar o acórdão do TJ e determinar o restabelecimento da decisão anteriormente proferida pelo juízo da execução p enal. Intime-se, com urgência, a origem para o cumprimento. Publique-se. Intimem-se. EMENTA