RHC 202704 - DECISAO
O Superior Tribunal de Justiça não conheceu do recurso ordinário em habeas corpus como sucedâneo recursal, por questão de inadequação da via e risco de supressão de instância; contudo, diante da ausência de apreciação do mérito pelo Tribunal de origem (configurando negativa de prestação jurisdicional) e por se...
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- Parties
- Impetrante: KLEBER DA SILVA PEREIRA; Órgão De Origem: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 15 August 2024
- Procedural Posture
- Recurso Ordinário Em Habeas Corpus / Decidido Pelo Superior Tribunal De Justiça (não Conheceu E Concedeu Ordem De Ofício Para Devolução Ao Tribunal De Origem)
- Outcome
- Não conheço do recurso ordinário em habeas corpus. Contudo, concedo a ordem de ofício para anular o acórdão nos autos do Habeas Corpus n. 1.0000.24.323606-4/000 e determinar que a Nona Câmara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais aprecie, como entender de direito, a existência de...
- Legal Topics
- Saída Temporária, Novatio Legis in Pejus, Irretroatividade Da Lei Penal Mais Gravosa, Via Inadequada Do Habeas Corpus, Negativa De Prestação Jurisdicional, Ordem De Ofício, Indefirimento De Benefício
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Parties
KLEBER DA SILVA PEREIRA
Impetrante
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
Órgão De Origem
Procedural Posture
Recurso Ordinário Em Habeas Corpus / Decidido Pelo Superior Tribunal De Justiça (não Conheceu E Concedeu Ordem De Ofício Para Devolução Ao Tribunal De Origem)
Legal Issues
- 1 Admissibilidade do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio
- 2 Aplicação temporal da Lei n. 14.843/2014 às execuções penais formadas antes do seu advento
- 3 Caracterização de novatio legis in pejus e irretroatividade da lei penal mais gravosa (art. 5º, XL, CF/1988)
Ratio Decidendi
O Superior Tribunal de Justiça não conheceu do recurso ordinário em habeas corpus como sucedâneo recursal, por questão de inadequação da via e risco de supressão de instância; contudo, diante da ausência de apreciação do mérito pelo Tribunal de origem (configurando negativa de prestação jurisdicional) e por se tratar de questão de direito que não exige revolvimento probatório, concedeu a ordem de ofício para anular o acórdão proferido e determinar que a Nona Câmara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais aprecie, como entender de direito, a existência de eventual ilegalidade cometida pelo Juízo de primeiro grau.
Court Disposition
Não conheço do recurso ordinário em habeas corpus. Contudo, concedo a ordem de ofício para anular o acórdão nos autos do Habeas Corpus n. 1.0000.24.323606-4/000 e determinar que a Nona Câmara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais aprecie, como entender de direito, a existência de...
Orders
- Não conheço do recurso ordinário em habeas corpus.
- Anulo o acórdão proferido nos autos do Habeas Corpus n. 1.0000.24.323606-4/000.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso em habeas corpus, com pedido de liminar, interposto por KLEBER DA SILVA PEREIRA, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, assim ementado: "HABEAS CORPUS - INDEFERIMENTO DE SAÍDA TEMPORÁRIA - MATÉRIA AFETA À EXECUÇÃO PENAL - VIA IMPRÓPRIA - VERIFICAÇÃO. Não se admite Habeas Co rpus em substituição ao recurso adequado, ressalvados os casos excepcionais em que, configurada flagrante ilegalidade, seja possível a concessão da ordem de ofício. Nos casos em que o reeducando não estava em fruição de saída temporária, o indeferimento do benefício, pelo magistrado, com base na Lei nº 14.843/24 não é causa de concessão da ordem de ofício, haja vista a existência de recurso próprio para impugnação da decisão objurgada." Nas razões recursais (e-STJ, fls. 105-118), o recorrente afirma que a Lei n. 14.843/2014, ao vedar a saída temporária e o trabalho externo ao condenado por crime hediondo ou com violência ou grave ameaça contra pessoa, inaugurou novatio legis in pejus. Assevera que, a fim de assegurar a irretroatividade da lei penal mais gravosa ao condenado (art. 5º, XL, da CF/1988), a norma só deve ser aplicada às execuções formadas após o advento do diploma legal. Defende, ainda, a possibilidade de manejo do habeas corpus, quando se tratar de matéria de direito. Requer, inclusive liminarmente, a concessão da ordem, para que o Juízo da Execução reexamine o pleito da saída temporária sob a ótica da legislação vigente ao tempo do cometimento do delito pelo qual cumpre pena. Alternativamente, pugna pela reapreciação do pedido originário, afastada a conclusão de que não é cabível habeas corpus em substituição a agravo em execução. É o relatório. De plano, verifico que a Corte de origem não conheceu do mandamus originário, considerando a impossibilidade do manuseio da ação constitucional como sucedâneo recursal. Assim, a matéria ora questionada é inviável de apreciação nesta Instância Superior, sob pena de supressão de instância. A propósito, os seguintes julgados desta Corte: "HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. MÉRITO. ANÁLISE DE OFÍCIO. ROUBO TENTADO. ALTERAÇÃO DE REGIME PRISIONAL. MATÉRIA NÃO ENFRENTADA. INOVAÇÃO RECURSAL. PRISÃO DETERMINADA PELO TRIBUNAL APÓS O JULGAMENTO DA APELAÇÃO. POSSIBILIDADE. EXECUÇÃO PROVISÓRIA DA PENA. LEGALIDADE. RECENTE ENTENDIMENTO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. REGIME SEMIABERTO. ADEQUAÇÃO. ANÁLISE DA PROGRESSÃO DE REGIME. SÚMULA 716 STF. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. ORDEM NÃO CONHECIDA. 1. O Superior Tribunal de Justiça, seguindo entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal, passou a não admitir o conhecimento de habeas corpus substitutivo de recurso próprio. Precedentes. No entanto, deve-se analisar o pedido formulado na inicial, tendo em vista a possibilidade de se conceder a ordem de ofício, em razão da existência de eventual coação ilegal. 2. Não é possível analisar a possibilidade de progressão de regime prisional (do semiaberto para o aberto) porque esta matéria não foi enfrentada pelo Tribunal local no acórdão impugnado. Inovação recursal e supressão de instâncias. .. 7. Habeas Corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício para determinar (i) a adequação da prisão do paciente ao regime intermediário (o semiaberto) fixado, salvo se por outro motivo estiver preso; ou, na ausência de vaga, que aguarde, em regime aberto ou domiciliar, o surgimento desta, mediante as condições impostas pelo Juízo da Execução Penal; (ii) a análise dos benefícios da execução penal (dentre eles, da progressão de regime)." (HC n. 509.450/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe de 5/8/2019). " .. 5. Com a juntada aos autos da cópia do acórdão prolatado na origem, é possível a apreciação das questões referentes às nulidades processuais alegadas pelo impetrante, porém essas matérias não foram apreciadas pelo Tribunal de origem, que não conheceu do writ por inadequação da via eleita, motivo pelo qual não poderão ser conhecidas diretamente por esta Corte Superior, sob pena de indevida supressão de instância. 6. Como o writ não foi conhecido na origem apenas em razão de ter sido impetrado como substitutivo de revisão criminal, verifica-se a ocorrência de ilegalidade por falta de prestação jurisdicional, por ser possível a verificação pela Corte local sobre a existência de ilegalidade flagrante, caso em que deverá conceder habeas corpus de ofício, a teor do disposto no art. 654, § 2º, do CPP. 7. Embargos de declaração recebidos como agravo regimental, ao qual se dá parcial provimento, para determinar que o Tribunal de origem aprecie o mérito do writ originário (HC n. 0008122-47.2016.8.08.0000/ES)." (EDcl no HC n. 407.709/ES, relator Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, julgado em 5/2/2019, DJe de 18/2/2019). Ocorre, porém, que a ausência de manifestação do Tribunal de origem sobre o tema suscitado no habeas corpus configura-se como indevida negativa de prestação jurisdicional, sendo cabível a devolução dos autos, para apreciação da matéria suscitada no mandamus. Trata-se de questão relevante, exclusivamente de direito, que já foi apreciada pelo Juízo de primeiro grau e trazida devidamente pela defesa na impetração originária. Não obstante a via estreita do habeas corpus não se prestar à análise do tema debatido, é necessário que possíveis ilegalidades cometidas pelo Juízo de primeiro grau, na apreciação do pedido de indulto, sejam afastadas de forma fundamentada. Vale sublinhar que o Superior Tribunal de Justiça possui entendimento no sentido de que, apesar de haver previsão de recurso no ordenamento jurídico, é admissível a utilização do mandamus quando a pretensão não demanda, em princípio, revolvimento de matéria probatória. Nesse sentido: "AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. MATÉRIA NÃO APRECIADA PELO TRIBUNAL A QUO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. O conhecimento do habeas corpus, sem o pronunciamento definitivo do Tribunal a quo, traduz supressão de instância e, via de consequência, violação às regras constitucionais definidoras da competência dos Tribunais Superiores, estabelecidas numerus clausus na Constituição Federal. 2. No entanto, o não conhecimento do habeas corpus originário, na hipótese, implica o reconhecimento de indevida negativa de prestação jurisdicional, de maneira que a matéria deve ser devolvida à Corte de origem para que seja apreciado o mérito da controvérsia, como o Tribunal entender de direito. 3. Agravo regimental desprovido. Ordem concedida de ofício." (AgRg no RHC n. 137.606/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 1º/12/2020, DJe de 16/12/2020). "HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. PACIENTE CONDENADO À PENA CORPORAL DE 8 ANOS DE RECLUSÃO, EM REGIME INICIAL FECHADO, POR INFRAÇÃO AO ART. 217-A DO CP. PLEITO DE ABRANDAMENTO DO REGIME PRISIONAL NÃO APRECIADO NA IMPETRAÇÃO ORIGINÁRIA. DEVOLUÇÃO À CORTE DE ORIGEM. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. - O Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. - Uma vez que a Corte local deixou de enfrentar, no writ lá impetrado, a possibilidade de fixação de regime prisional mais brando, por não ser o habeas corpus a via adequada para tal exame, não pode este Superior Tribunal de Justiça analisar os temas, sob pena de indevida supressão de instância. - Por outro lado, a jurisprudência desta Corte entende que, não obstante a previsão de recurso próprio no ordenamento jurídico, é cabível a impetração de habeas corpus sempre que a ilegalidade suscitada estiver influenciando na liberdade de locomoção do indivíduo e a pretensão formulada não demandar revolvimento de matéria probatória. Nessas hipóteses, a solução cinge-se em determinar que o Tribunal de origem aprecie, como entender de direito, o mérito do habeas corpus originário, ofertando a devida prestação jurisdicional. Precedentes. - Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício, determinando que o Tribunal local enfrente o mérito do HC n. 2198911-65.2016.8.26.0000, decidindo-o como entender de direito." (HC n. 393.671/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 27/6/2017, DJe de 1º/8/2017). Ante o exposto, não conheço do recurso ordinário em habeas corpus. Todavia, concedo a ordem, de ofício, para anular o acórdão proferido nos autos do Habeas Corpus n. 1.0000.24.323606-4/000 e determinar à Nona Câmara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais que aprecie, como entender de direito, a existência de eventual ilegalidade cometida pelo Juízo de primeiro grau. Publique-se. Intimem-se. EMENTA