HC 961783 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus substitutivo de recurso próprio, salvo flagrante ilegalidade; contudo, concedo a ordem de ofício porque as normas de execução penal que estabelecem requisitos mais gravosos para a concessão de benefícios têm natureza penal e, portanto, não retroagem para atingir fatos anteriores à sua...
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- Parties
- Paciente: EMERSON MAIER; Recorrente: Ministério Público
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 December 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Ordem concedida para reestabelecer a decisão do Juízo da Execução Penal
- Legal Topics
- Saída Temporária, Aplicabilidade Temporal Da Lei, Novatio Legis in Pejus, Retroatividade, Progressão De Regime, Habeas Corpus Substitutivo
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Parties
EMERSON MAIER
Paciente
Ministério Público
Recorrente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Se a Lei n. 14.843/2024 tem caráter processual (aplicabilidade imediata) ou material (aplicável apenas aos crimes praticados após sua vigência)
- 2 Se o habeas corpus pode ser conhecido como substitutivo de recurso próprio ou revisão criminal
- 3 Se a vedação às saídas temporárias prevista na Lei 14.843/2024 pode retroagir para atingir fatos anteriores à sua vigência
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus substitutivo de recurso próprio, salvo flagrante ilegalidade; contudo, concedo a ordem de ofício porque as normas de execução penal que estabelecem requisitos mais gravosos para a concessão de benefícios têm natureza penal e, portanto, não retroagem para atingir fatos anteriores à sua vigência, salvo se mais benéficas ao condenado; assim, a vedação imposta pela Lei 14.843/2024 às saídas temporárias não se aplica aos fatos anteriores, devendo ser restabelecida a decisão do Juízo de primeiro grau que deferiu a progressão e a saída temporária.
Court Disposition
Ordem concedida para reestabelecer a decisão do Juízo da Execução Penal
Orders
- Reestabelecer a decisão do Juízo da Execução Penal que deferiu progressão para o regime semiaberto e a saída temporária.
- Comunique-se, com urgência, o teor desta decisão ao Tribunal e ao Juízo de origem.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de EMERSON MAIER contra acórdão assim ementado: DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO EM EXECUÇÃO PENAL. CONCESSÃO DO BENEFÍCIO DA SAÍDA TEMPORÁRIA. RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Recurso contra decisão que afastou a aplicabilidade da Lei n. 14.843/2024 e deferiu ao apenado a concessão do benefício da saída temporária. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em saber se a nova Lei n. 14.843/2024, que impede a concessão do benefício da saída temporária aos condenados por de crimes hediondos/equiparados ou com violência ou grave ameaça à pessoa (art. 122, § 2º, da LEP), tem caráter processual (de aplicabilidade imediata) ou material (aplicável apenas aos crimes praticados após sua vigência). III. RAZÕES DE DECIDIR 3. Em que pese o posicionamento desta Relatora em sentido diverso até então, e não obstante a divergência deste Tribunal sobre a matéria, acompanho, por ora, até a uniformização da temática nas Cortes, as razões do Ministério Público para adotar a aplicabilidade imediata das alterações promovidas pela Lei 14.843/2024 às execuções penais em andamento, por entender que as inovações não tratam de conteúdo de natureza material, já que não implicam a supressão de direito ou garantia aos apenados, mas tão somente regulam os requisitos para o gozo de um benefício já previsto. 4. Oportuno consignar o entendimento pessoal no sentido de que, caso já concedido ao apenado o benefício da saída temporária antes do advento da nova norma, deve assim ser mantido, a fim de se resguardar o direito daqueles que à época tiveram o benefício devidamente deferido com base em lei vigente no período, admitindo-se a revogação da benesse apenas se verificado não mais preencher os requisitos para tanto - situação diversa do caso presente. 5. Dessa forma, considerando que o apenado cumpre pena pelo crime de estupro de vulnerável, e que a LEP, com a alteração promovida pela Lei 14.843/2024, passou a impedir a concessão da saída temporária para condenados por crimes hediondos, a decisão que concedeu o benefício deve ser reformada. IV. DISPOSITIVO 6. Recurso conhecido e provido. O Juízo da Execução Penal deferiu ao apenado a progressão para o regime semiaberto e a saída temporária (e-STJ fls. 21 -23). O Tribunal local deu provimento ao agravo interposto pelo Ministério Público para cassar a decisão que concedeu as saídas temporárias. A defesa alega, em síntese, que as alterações realizadas pela Lei 14.843/2024 possuem natureza penal, e por constituírem novatio legis in pejus só podem ser aplicadas para os delitos praticados após o advento da lei. Ao final, requer a concessão da ordem para restabelecer a decisão do Juízo da Execução Penal. É o relatório. Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024). A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o "habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado" (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. A concessão de ofício da ordem, nos termos dos arts. 647-A e 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade. Analisando-se o conteúdo da documentação colacionada aos autos, verifico a presença de flagrante ilegalidade capaz de fundamentar a concessão da ordem de ofício. A controvérsia posta em julgamento diz respeito à possibilidade ou não de a nova lei (Lei nº 14.843/24), que revogou as saídas temporárias para fins de visita familiar (art. 122, inc. I, da LEP), retroaja para atingir fatos anteriores à sua vigência. A resposta é negativa. Isso porque as normas relacionadas à execução são de natureza penal e, nesse contexto, somente podem incidir ao tempo do crime, ou seja, no momento em que a ação ou omissão for praticada (art. 4º do CP), salvo se forem mais benéficas ao executando, situação em que terão efeitos retroativos (art. 2º, parágrafo único, do CP). Nesse sentido já decidiu o Supremo Tribunal Federal: AGRAVO INTERNO NO RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSUAL PENAL. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO DE REGIME. LEI Nº 13.964/19. NOVO REGIME DE PROGRESSÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE. AUMENTO DA FRAÇÃO DE CUMPRIMENTO DE PENA EXIGIDA PARA A PROGRESSÃO DE REGIME NOS CRIMES COMUNS. NOVATIO LEGIS IN MALAM PARTEM. DISCIPLINA LEGISLATIVA DISTINTA DA PROGRESSÃO DE REGIME, A DEPENDER DA NATUREZA DO DELITO, COMUM OU HEDIONDO. LEX TERTIA. NÃO CONFIGURAÇÃO. TRATAMENTO LEGAL NÃO UNIFORME DA EXECUÇÃO DAS PENAS DOS CRIMES COMUNS E DOS CRIMES HEDIONDOS. NORMAS QUE INCIDEM AUTONOMAMENTE, E NÃO COORDENADAMENTE, EM CADA ESPÉCIE DELITIVA. VERIFICAÇÃO DA RETROATIVIDADE DA NOVA FRAÇÃO DE PROGRESSÃO, CONSIDERADA A NATUREZA DE CADA DELITO (COMUM OU HEDIONDO). DIREITO FUNDAMENTAL À IRRETROATIVIDADE DA LEI PENAL MAIS GRAVOSA. ARTIGO 5º, XL, DA CONSTITUIÇÃO. VIOLAÇÃO. PRECEDENTES UNÍSSONOS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. DETERMINAÇÃO DE APLICAÇÃO DA NORMA VIGENTE AO TEMPO DO FATO DELITUOSO, QUANTO AO CRIME COMUM, POR SER MAIS BENÉFICA. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. .. . 8. A lei que estabelece requisitos mais gravosos para concessão de progressão de regime não se aplica aos crimes cometidos antes da sua vigência, como ressai da pacífica jurisprudência desta Corte. Precedentes. 9. A reunião, sob um mesmo dispositivo legal, de todas as normas regentes da progressão de regime de delitos de diferentes modalidades, não anula o fato de que a disciplina conferida a crimes comuns e a crimes hediondos continua a ser autônoma. 10. Por esta razão, não incide, no caso, o óbice jurisprudencial que veda a combinação de normas ou de leis, consistente na criação de uma lex tertia. Trata-se de regimes de progressão de pena que receberam, do legislador, tratamento legal independente, cada qual (crimes comuns e crimes hediondos) com seu conjunto específico de normas de regência. Precedentes. 11. Agravo interno desprovido. (RHC 221271 AgR, Relator(a): LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 09-05-2023 - grifos acrescidos). No mesmo sentido, ensina Alexis Couto de Brito: .. . Sempre que a lei voltada à execução penal contiver normativas sancionadoras (novas infrações, novas sanções, pressupostos para liberdade etc.), deverá prevalecer a natureza penal dos princípios e não poderá retroagir exceto para beneficiar o condenado .. (BRITO, Alexis Couto de. Execução penal. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2019, e-book, p. 69) Sendo assim, no presente caso, o entendimento firmado pelo Tribunal de origem, no sentido de que as normas de execução penal são meramente procedimentais e que, portanto, são aplicáveis imediatamente, não prospera. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus substitutivo, mas concedo a ordem de ofício para reestabelecer a decisão do Magistrado de primeiro grau. Comunique-se, com urgência, o teor desta decisão ao Tribunal e ao Juízo de origem. Após, ciência ao Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA