AREsp 2934172 - DECISAO
A Corte concluiu que a alteração introduzida pela Lei n. 14.843/2024 ao §2º do art. 122 da Lei de Execução Penal é mais gravosa (novatio legis in pejus) e, em respeito ao princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa previsto no art. 5º, XL, da CF/1988, não pode ser aplicada a fatos ocorridos antes de sua...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS; Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 01 August 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão Sobre Agravo (conhecimento E Desprovimento)
- Outcome
- Conheço do agravo e nego provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Saída Temporária, Irretroatividade Da Lei Penal Mais Gravosa, Novatio Legis in Pejus, Admissibilidade De Recurso Especial, Súmula 83/stj
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Agravante
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
Recorrido
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão Sobre Agravo (conhecimento E Desprovimento)
Legal Issues
- 1 Aplicação retroativa da Lei n. 14.843/2024 ao art. 122 da Lei de Execução Penal
- 2 Admissibilidade do recurso especial diante da aplicação da Súmula 83/STJ
- 3 Interpretação do princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa
Ratio Decidendi
A Corte concluiu que a alteração introduzida pela Lei n. 14.843/2024 ao §2º do art. 122 da Lei de Execução Penal é mais gravosa (novatio legis in pejus) e, em respeito ao princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa previsto no art. 5º, XL, da CF/1988, não pode ser aplicada a fatos ocorridos antes de sua vigência; assim, manteve-se o acórdão do Tribunal de origem que determinou a apreciação dos requisitos segundo a legislação anterior e negou-se provimento ao recurso especial.
Court Disposition
Conheço do agravo e nego provimento ao recurso especial.
Orders
- Conheço do agravo.
- Nego provimento ao recurso especial.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS agrava da decisão que inadmitiu o seu recurso especial manejado em face de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais no julgamento de agravo em execução penal n. 1.0145.09.507.268-5/005. O agravante requereu o processamento do recurso especial com fundamento no art. 1.042 do Código de Processo Civil, argumentando que a decisão que inadmitiu o apelo utilizou como fundamento a Súmula 83 do Superior Tribunal de Justiça com base em paradigmas oriundos de habeas corpus, o que seria indevido ante a cognição sumária própria dessa via (fls. 90-98). O juízo da execução indeferiu o pedido de saída temporária com base nas alterações promovidas pela Lei n. 14.843/2024. O Tribunal de origem decidiu nos termos seguintes (fls. 33-34): EMENTA: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO EM EXECUÇÃO PENAL. SAÍDA TEMPORÁRIA. LEI N.º 14.843/2024 ("LEI SARGENTO PM DIAS"). PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE DA LEI PENAL MAIS GRAVOSA. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA NOVA LEGISLAÇÃO A FATOS ANTERIORES À SUA VIGÊNCIA. RECURSO DEFENSIVO PARCIALMENTE PROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo interposto pela defesa contra decisão que indeferiu o benefício da saída temporária, em razão das alterações promovidas pela Lei n.º 14.843/2024, que restringiram a concessão do benefício. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão é se as alterações trazidas pela Lei n.º 14.843/2024, mais gravosas ao apenado, podem ser aplicadas retroativamente, em afronta ao princípio da irretroatividade da lei penal mais severa. III. Razões de decidir 3. A Lei n.º 14.843/2024 introduziu restrições ao benefício da saída temporária. Tais normas possuem caráter híbrido, afetando direitos fundamentais do apenado, como a liberdade de ir e vir. 4. Nos termos do art. 5º, XL, da CF/1988, é vedada a retroatividade da lei penal mais gravosa, sendo que as novas regras devem incidir apenas sobre fatos ocorridos após a sua vigência. 5. A legislação aplicável ao caso é aquela vigente à época dos fatos que fundamentaram a concessão do benefício, não sendo possível restringir direitos adquiridos sob a lei anterior. 6. No entanto, o juízo de origem não analisou os demais requisitos objetivos e subjetivos conforme a legislação anterior, o que impede a concessão imediata dos benefícios. IV. Dispositivo e tese 7. Recurso defensivo parcialmente provido para afastar o óbice imposto em relação à aplicação da Lei n.º 14.843/2024, determinando que o Juízo da execução aprecie os requisitos objetivos e subjetivos conforme a legislação anterior. Interposto recurso especial, com fulcro no art. 105, III, alínea "a", da Constituição Federal, o Ministério Público sustentou violação ao art. 122, caput e § 2º, da Lei de Execução Penal, alegando que a nova redação poderia incidir sobre os fatos pretéritos, não havendo vedação constitucional à retroatividade da norma (fls. 68-74). O recurso especial foi inadmitido na origem, ao argumento de que o entendimento adotado no acórdão recorrido está em harmonia com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a atrair a aplicação da Súmula 83/STJ (fls. 82-85), o que ensejou a interposição do presente agravo, no qual o agravante sustenta que não se pode invocar decisões proferidas em habeas corpus como paradigma para aplicação do referido enunciado sumular (fls. 90-98). Contraminuta apresentada às fls. 102-109. O Ministério Público Federal opinou pelo desprovimento do agravo em recurso especial (fls. 131-136). Decido. O agravo é tempestivo e foi impugnado o fundamento da decisão de inadmissibilidade. Passo a analisar o recurso especial. Insurge-se o Ministério Público do Estado de Minas Gerais contra acórdão que, mantendo decisão do Juízo da execução penal, afastou a aplicação imediata das alterações promovidas pela Lei n. 14.843/2024 ao art. 122 da Lei de Execução Penal, determinando que o pedido de saída temporária formulado pela pessoa em privação de liberdade fosse analisado com base nos requisitos anteriores à nova redação legal, por se tratar de crime cometido antes da entrada em vigor da norma mais gravosa. Conforme reiterada jurisprudência desta Corte Superior, a nova redação do § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, promovida pela Lei n. 14.843/2024, constitui novatio legis in pejus e, por essa razão, não pode retroagir para alcançar fatos anteriores à sua vigência. Nesse sentido: .. Tese de julgamento: 1. O § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, com redação dada Lei n .14.843/2024, torna mais restritiva a execução da pena, restringindo o gozo das saídas temporárias aos condenados por crimes hediondos ou cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, não pode ser aplicado retroativamente a fatos ocorridos antes de sua vigência, em respeito ao princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa. .. (HC n. 932.864/SC, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, 6ª T., DJe 13/9/2024) Esta Corte não aplica de forma imediata as alterações legislativas mais rigorosas que afetam a execução penal. Em demandas relacionadas à progressão de regime, é firme a compreensão de que a "LEI N. 13.964/2019. PACOTE ANTICRIME. ALTERAÇÃO DOS PATAMARES DE PROGRESSÃO DO ART. 112 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL. HIPÓTESE DE LEI PENAL POSTERIOR MAIS GRAVOSA. IRRETROATIVIDADE" (AgRg no HC n. 707.364/GO, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 15/2/2022, DJe de 24/2/2022). No caso concreto, o acórdão recorrido assentou, com base na jurisprudência consolidada, que as alterações promovidas pela Lei n. 14.843/2024 ao art. 122 da Lei de Execução Penal, por aumentarem o rigor da execução, não podem ser aplicadas a fatos anteriores à sua vigência. Dessa forma, deve ser preservado o acórdão impugnado em sua integralidade, pois decidiu em conformidade com a jurisprudência desta Corte, segundo a qual normas penais mais gravosas não podem retroagir para alcançar fatos pretéritos. À vista do exposto, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial . Publique-se. Intimem-se. EMENTA