AREsp 2753622 - DECISAO
A condenação estava apoiada apenas em relatos extrajudiciais dos policiais e em documentos administrativos de apreensão, sem qualquer prova produzida sob o crivo do contraditório que vinculasse o réu à propriedade do material apreendido; tal prova é insuficiente segundo a jurisprudência do STJ, razão pela qual se...
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- Parties
- Agravante: ANTONIO FREITAS DE FRANCA; Decisão Recorrida: Ministro Presidente do STJ
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 December 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental / Interposição De Agravo Regimental Contra Decisão Monocrática Que Não Conheceu Do Agravo Em Recurso Especial
- Outcome
- Concedo habeas corpus, de ofício, para absolver o acusado da prática do crime capitulado no art. 334-A do Código Penal, com fundamento nos arts. 386, VII, e 654, § 2º, do Código de Processo Penal. Fica prejudicado o agravo regimental (fls. 339-349).
- Legal Topics
- Testemunho Indireto (hearsay), Prova Produzida Em Sede Inquisitorial, Contraditório E Ampla Defesa, Materialidade Delitiva, Perda Da Chance Probatória, Absolvição Por Insuficiência De Provas
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Parties
ANTONIO FREITAS DE FRANCA
Agravante
Ministro Presidente do STJ
Decisão Recorrida
Procedural Posture
Agravo Regimental / Interposição De Agravo Regimental Contra Decisão Monocrática Que Não Conheceu Do Agravo Em Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Se a condenação pode se sustentar com base em depoimentos extrajudiciais de policiais rodoviários federais e documentos administrativos sem prova produzida sob o crivo do contraditório
- 2 Se é cabível conceder habeas corpus de ofício diante de flagrante ilegalidade na manutenção da condenação
Ratio Decidendi
A condenação estava apoiada apenas em relatos extrajudiciais dos policiais e em documentos administrativos de apreensão, sem qualquer prova produzida sob o crivo do contraditório que vinculasse o réu à propriedade do material apreendido; tal prova é insuficiente segundo a jurisprudência do STJ, razão pela qual se concedeu habeas corpus de ofício e se absolveu o acusado com fundamento nos arts. 386, VII, e 654, § 2º do CPP.
Court Disposition
Concedo habeas corpus, de ofício, para absolver o acusado da prática do crime capitulado no art. 334-A do Código Penal, com fundamento nos arts. 386, VII, e 654, § 2º, do Código de Processo Penal. Fica prejudicado o agravo regimental (fls. 339-349).
Orders
- Concedo habeas corpus para absolver o acusado da prática do crime capitulado no art. 334-A do Código Penal, com fundamento nos arts. 386, VII, e 654, § 2º, do Código de Processo Penal.
- Fica prejudicado o agravo regimental (fls. 339-349).
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo regimental interposto por ANTONIO FREITAS DE FRANCA contra decisão do Ministro Presidente do STJ, que, nos termos do art. 21-E, inciso V, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheceu do agravo em recurso especial (fls. 334-335). A parte agravante reitera seus argumentos de mérito recursal, e pede, ao final, o provimento do presente agravo, para prover também o recurso especial. Subsidiariamente, pleiteia a concessão, de ofício, de habeas corpus. É o relatório. Embora o agravo regimental realmente tenha suas deficiências, conforme destacado pelo MPF (fls. 361-368), verifico pela leitura do acórdão recorrido a ocorrência de flagrante ilegalidade, o que autoriza a concessão de ordem de habeas corpus de ofício. Depreende-se dos autos que a condenação do acusado está fundamentada basicamente no relato extrajudicial dos policiais rodoviários federais responsáveis pela abordagem do veículo e nos documentos que descrevem a apreensão de "12 caixas de cigarros eletrônicos, cada uma contando com 450 unidades do produto" (fl. 204). No caso, não há nenhum elemento de prova, submetido ao contraditório e à ampla defesa, que descreva minimamente que o réu seria o proprietário do material apreendido, sobretudo pelo fato de que o veículo onde foram localizadas as mercadorias estava sendo conduzido por Rulian Albanezi dos Santos, beneficiado com acordo de não persecução penal (fl. 143). Os documentos que exibem a apreensão e posterior trâmite administrativo da mercadoria contrabandeada são suficientes, apenas, para indicação da materialidade delitiva. Afinal, na hipótese em apreço, toda a dinâmica que ensejou a localização e apreensão do material na posse dos acusados é sustentada nos depoimentos dos policiais, os quais nem sequer foram ouvidos em juízo. Nesse contexto, reafirmo que a prova atinente à dinâmica dos fatos é restrita aos relatos prestados pelos policiais rodoviários federais ainda em sede inquisitorial. Essa espécie de dado probatório, todavia, revela-se insuficiente para manter a condenação, segundo o mais recente entendimento deste STJ. Com essa orientação, cito os seguintes precedentes: "PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. PEDIDO DE CONDENAÇÃO. SUPOSTA VÍTIMA QUE NEGOU EM JUÍZO A OCORRÊNCIA DO CRIME. AUSÊNCIA DE PROVA DA MATERIALIDADE DELITIVA. ART. 155 DO CPP. NECESSIDADE DE RESTAURAÇÃO DA SENTENÇA ABSOLUTÓRIA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. O Tribunal local valeu-se principalmente dos depoimentos prestados pela suposta vítima e sua mãe à polícia, na fase extrajudicial, para concluir que a ofendida sofreu estupros e que o recorrente seria seu autor. Acontece que, quando ouvidas em juízo, essas duas testemunhas centrais negaram suas declarações anteriores, que não foram confirmadas sob o crivo do contraditório, como reconhece o acórdão recorrido. 2. O aresto apenas presumiu que as declarações da suposta vítima e de sua mãe em juízo seriam falsas, mas não apontou nenhum elemento de convicção nesse sentido. Foi necessária, por isso, a restauração da sentença absolutória. 3. É inviável a condenação lastreada unicamente em elementos informativos do inquérito, segundo o art. 155 do CPP. 4. "O testemunho indireto (também conhecido como testemunho de "ouvir dizer" ou hearsay testimony) não é apto para comprovar a ocorrência de nenhum elemento do crime e, por conseguinte, não serve para fundamentar a condenação do réu" (AREsp n. 1.940.381/AL, de minha relatoria, Quinta Turma, julgado em 14/12/2021, DJe de 16/12/2021.) 5. Agravo regimental desprovido". (AgRg no AREsp n. 2.127.586/GO, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 6/9/2022, DJe de 13/9/2022.) "PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ATO INFRACIONAL ANÁLOGO A HOMICÍDIO TENTADO. TESE DE LEGÍTIMA DEFESA. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO IDÔNEA PARA SUA REJEIÇÃO PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. TESTEMUNHO INDIRETO (HEARSAY TESTIMONY) QUE NÃO SERVE PARA FUNDAMENTAR A CONDENAÇÃO. OFENSA AO ART. 212 DO CPP. AUSÊNCIA DE IDENTIFICAÇÃO, PELA POLÍCIA, DAS TESTEMUNHAS OCULARES DO DELITO, IMPOSSIBILITANDO SUA OUVIDA EM JUÍZO. FALTA TAMBÉM DO EXAME DE CORPO DE DELITO. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 6º, III E VII, E 158 DO CPP. DESISTÊNCIA, PELO PARQUET, DA OUVIDA DE DUAS TESTEMUNHAS IDENTIFICADAS E DA VÍTIMA. GRAVES OMISSÕES DA POLÍCIA E DO MINISTÉRIO PÚBLICO QUE RESULTARAM NA FALTA DE PRODUÇÃO DE PROVAS RELEVANTES. TEORIA DA PERDA DA CHANCE PROBATÓRIA. DESCONSIDERAÇÃO DO DEPOIMENTO DO REPRESENTADO. EVIDENTE INJUSTIÇA EPISTÊMICA. AGRAVO CONHECIDO PARA DAR PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL, A FIM DE ABSOLVER O RECORRENTE. 1. O representado foi condenado em primeira e segunda instâncias pela prática de ato infracional análogo a homicídio tentado. 2. Como relataram a sentença e o acórdão, a namorada grávida e um amigo do recorrente foram agredidos por J F DA S A após este ter consumido bebida alcoólica, ao que o representado reagiu, golpeando o agressor com um paralelepípedo. Segundo as instâncias ordinárias, constatou-se excesso na legítima defesa, com base nos depoimentos indiretos do bombeiro e da policial militar que atenderam a ocorrência quando a briga já havia acabado. Esses depoentes, por sua vez, relataram o que lhes foi informado por "populares", testemunhas oculares da discussão que não chegaram a ser identificadas ou ouvidas formalmente pela polícia, tampouco em juízo. 3. O testemunho indireto (hearsay testimony) não se reveste da segurança necessária para demonstrar a ocorrência de nenhum elemento do crime, mormente porque retira das partes a prerrogativa legal de inquirir a testemunha ocular dos fatos (art. 212 do CPP). 4. A imprestabilidade do testemunho indireto no presente caso é reforçada pelo fato de que a polícia, em violação do art. 6º, III, do CPP, nem identificou as testemunhas oculares que lhes repassaram as informações posteriormente relatadas pela policial militar em juízo. Por outro lado, a vítima, a namorada do recorrente e seu amigo - todos conhecidos da polícia e do Parquet - não foram ouvidos em juízo, tendo o MP/AL desistido de sua inquirição. 5. Para além da falta de identificação e ouvida das testemunhas oculares, a vítima não foi submetida a exame de corpo de delito, por inércia da autoridade policial e sem a apresentação de justificativa válida para tanto (na forma do art. 167 do CPP), o que ofende os arts. 6º, VII, e 158 do CPP. Perda da chance probatória configurada. 6. "Nas hipóteses em que o Estado se omite e deixa de produzir provas que estavam ao seu alcance, julgando suficientes aqueles elementos que já estão à sua disposição, o acusado perde a chance - com a não produção (desistência, não requerimento, inviabilidade, ausência de produção no momento do fato etc.) -, de que a sua inocência seja afastada (ou não) de boa-fé. Ou seja, sua expectativa foi destruída" (ROSA, Alexandre Morais da; RUDOLFO, Fernanda Mambrini. A teoria da perda de uma chance probatória aplicada ao processo penal. Revista Brasileira de Direito, v. 13, n. 3, 2017, p. 462). 7. Mesmo sem a produção de nenhuma prova direta sobre os fatos por parte da acusação, a tese de legítima defesa apresentada pelo réu foi ignorada. Evidente injustiça epistêmica - cometida contra um jovem pobre, em situação de rua, sem educação formal e que se tornou pai na adolescência -, pela simples desconsideração da narrativa do representado. 8. Agravo conhecido para dar provimento ao recurso especial e absolver o recorrente, com a adoção das seguintes teses: 8.1: o testemunho indireto (também conhecido como testemunho de "ouvir dizer" ou hearsay testimony) não é apto para comprovar a ocorrência de nenhum elemento do crime e, por conseguinte, não serve para fundamentar a condenação do réu. Sua utilidade deve se restringir a apenas indicar ao juízo testemunhas referidas para posterior ouvida na instrução processual, na forma do art. 209, § 1º, do CPP. 8.2: quando a acusação não produzir todas as provas possíveis e essenciais para a elucidação dos fatos, capazes de, em tese, levar à absolvição do réu ou confirmar a narrativa acusatória caso produzidas, a condenação será inviável, não podendo o magistrado condenar com fundamento nas provas remanescentes". (AREsp n. 1.940.381/AL, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 14/12/2021, DJe de 16/12/2021.) Assim, não havendo nenhuma prova direta e produzida sob o crivo do contraditório acerca dos fatos e da autoria delitiva, a condenação do acusado é inviável. Ante o exposto, concedo habeas corpus, de ofício, a fim de absolver o acusado da prática do crime capitulado no art. 334-A Código Penal, com fundamento nos arts. 386, VII, e 654, § 2º, do Código de Processo Penal. Fica prejudicado o agravo regimental (fls. 339-349). Publique-se. Intimem-se. EMENTA