HC 1011176 - DECISAO
Embora a jurisprudência admita a atipicidade material do cultivo de Cannabis para fins medicinais quando devidamente justificado, a concessão de salvo-conduto exige prova pré-constituída e cumulativa dos requisitos fixados; no caso, a documentação juntada foi insuficiente (laudo agronômico sem assinatura digital...
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- Parties
- Paciente: GUILHERME PEDROSO; Órgão Prolator Do Acórdão: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP); Manifestante (opinou Pela Concessão): Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 August 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Preventivo / Decisão Denegatória Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- denego o habeas corpus
- Legal Topics
- Uso Medicinal De Cannabis, Cultivo De Cannabis Sativa, Atipicidade Material, Salvo Conduto, Prova Pré Constituída, Autorização ANVISA
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Parties
GUILHERME PEDROSO
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP)
Órgão Prolator Do Acórdão
Ministério Público Federal
Manifestante (opinou Pela Concessão)
Procedural Posture
Habeas Corpus Preventivo / Decisão Denegatória Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Se o cultivo de Cannabis Sativa para fins medicinais configura crime
- 2 Quais os requisitos e prova necessária para concessão de salvo-conduto em habeas corpus preventivo
- 3 Se a documentação apresentada (prescrição, laudos, autorização ANVISA) é suficiente como prova pré-constituída
Ratio Decidendi
Embora a jurisprudência admita a atipicidade material do cultivo de Cannabis para fins medicinais quando devidamente justificado, a concessão de salvo-conduto exige prova pré-constituída e cumulativa dos requisitos fixados; no caso, a documentação juntada foi insuficiente (laudo agronômico sem assinatura digital verificável e laudo médico não subscrito por especialista), razão pela qual o habeas corpus foi denegado.
Court Disposition
denego o habeas corpus
Orders
- Denego o habeas corpus.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus preventivo, com pedido liminar, impetrado em favor de GUILHERME PEDROSO, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) no Recurso em Sentido Estrito n.º 1013371-80.2025.8.26.0602. Consta dos autos que o paciente, diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno de Ansiedade Generalizada, após a ineficácia de tratamentos convencionais, obteve prescrição médica para uso de óleo derivado de Cannabis Sativa. Impetrou, então, habeas corpus preventivo em primeira instância, buscando salvo-conduto para o cultivo da planta para fins medicinais, o qual foi denegado (fls. 44-45) Inconformada, a defesa interpôs Recurso em Sentido Estrito, ao qual a 4ª Câmara de Direito Criminal do TJSP negou provimento, por entender que o cultivo da planta configura crime e que a documentação médica seria insuficiente (fls. 31-43) No presente writ, o impetrante alega a ocorrência de manifesto constrangimento ilegal, sustentando que a decisão do Tribunal a quo contraria a jurisprudência pacífica deste Superior Tribunal de Justiça. Argumenta a atipicidade material da conduta, dada a finalidade exclusivamente terapêutica do cultivo, comprovada por prescrição médica, laudos e, inclusive, por autorização de importação emitida pela ANVISA. Requer a concessão da ordem para expedir salvo-conduto que o autorize a cultivar a planta para extração de óleo medicinal, nos termos da prescrição e do laudo agronômico juntados. O pedido liminar foi indeferido (fls. 61-63). O Ministério Público Federal, opinou pela concessão da ordem, na forma da seguinte ementa (fls. 65-68): HABEAS CORPUS PREVENTIVO. SALVO CONDUTO. USO DE CANNABIS SATIVA PARA FINALIDADE MEDICINAL. PELA CONCESSÃO DA ORDEM. É o relatório. Decido. A ordem não pode ser concedida. A controvérsia central estabelecida nos autos já se encontra pacificada no âmbito desta colenda Corte Superior. As egrégias Quinta e Sexta Turmas consolidaram e uniformizaram o entendimento de que o cultivo de Cannabis Sativa para fins exclusivamente medicinais, devidamente justificado por documentação idônea, é conduta materialmente atípica. Isso porque o tipo penal previsto no art. 33, § 1º, da Lei nº 11.343/2006, visa a tutelar a saúde pública. A conduta de quem cultiva a planta para extrair substâncias que irão promover a sua própria saúde e dignidade, em vez de atentar contra o bem jurídico protegido, na verdade o fomenta. Não há, portanto, lesividade a justificar a incidência da norma penal. Nesse sentido, a colenda Terceira Seção, no julgamento do AgRg no HC n. 783.717/PR, firmou a tese de que "o plantio e a aquisição das sementes da Cannabis sativa, para fins medicinais, não configuram conduta criminosa, independente da regulamentação da ANVISA", confira-se: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. CULTIVO DOMÉSTICO DA PLANTA CANNABIS SATIVA PARA FINS MEDICINAIS. HABEAS CORPUS PREVENTIVO. UNIFORMIZAÇÃO DO ENTENDIMENTO DAS TURMAS CRIMINAIS. RISCO DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. DIREITO A SAÚDE PÚBLICA E A MELHOR QUALIDADE DE VIDA. REGULAMENTAÇÃO. OMISSÃO DA ANVISA E DO MINISTÉRIO DA SAÚDE. ATIPICIDADE PENAL DA CONDUTA. 1. O conjunto probatório dos autos aponta que o uso medicinal do óleo extraído da planta Cannabis sativa encontra-se suficientemente demonstrado pela documentação médica, pois foram anexados Laudo Médico e receituários médicos, os quais indicam o uso do óleo medicinal (CBD Usa Hemp 6000mg full spectrum e Óleo CBD/THC 10%). 2. O entendimento da Quinta Turma passou a corroborar o da Sexta Turma que, na sessão de julgamento do dia 14/6/2022, de relatoria do Ministro Rogério Schietti Cruz, por unanimidade, negou provimento ao Recurso Especial n. 1.972.092-SP do Ministério Público, e manteve a decisão do Tribunal de origem, que havia concedido habeas corpus preventivo. Então, ambas as turmas passaram a entender que o plantio e a aquisição das sementes da Cannabis sativa, para fins medicinais, não se trata de conduta criminosa, independente da regulamentação da ANVISA. 3. Após o precedente paradigma da Sexta Turma, formou-se a jurisprudência, segundo a qual, "uma vez que o uso pleiteado do óleo da Cannabis sativa, mediante fabrico artesanal, se dará para fins exclusivamente terapêuticos, com base em receituário e laudo subscrito por profissional médico especializado, chancelado pela ANVISA na oportunidade em que autorizou os pacientes a importarem o medicamento feito à base de canabidiol - a revelar que reconheceu a necessidade que têm no seu uso - , não há dúvidas de que deve ser obstada a iminente repressão criminal sobre a conduta praticada pelos pacientes/recorridos" (REsp n. 1.972.092/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 14/6/2022, DJe de 30/6/2022). 4. Os fatos, ora apresentados pelos agravantes, não podem ser objeto da sanção penal, porque se tratam do exercício de um direito fundamental garantido na Constituição da República, e não há como, em matéria de saúde pública e melhor qualidade de vida, ignorar que "a função judicial acaba exercendo a competência institucional e a capacidade intelectual para fixar tais conceitos abstratos, atribuindo significado aos mesmos, concretizando-os, e até dando um alcance maior ao texto constitucional, bem como julgando os atos das outras funções do Poder Público que interpretam estes mesmos princípios" (DUTRA JÚNIOR, José Felicio. Constitucionalização de fatos sociais por meio da interpretação do Supremo Tribunal Federal: Análise de alguns julgados proativos da Suprema Corte Brasileira. Revista Cadernos de Direito, v. 1, n. 1, UDF: Brasília, 2019, pags. 205-206). 5. Agravo regimental provido, para conceder o habeas corpus, a fim de garantir aos pacientes o salvo-conduto, para obstar que qualquer órgão de persecução penal turbe ou embarace a aquisição de 10 (dez) sementes de Cannabis sp., bem como o cultivo de 7 (sete) plantas de Cannabis sp. e extração do óleo, por ser imprescindível para a sua qualidade de vida e saúde. Oficie-se à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e ao Ministério da Saúde. (AgRg no HC n. 783.717/PR, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Terceira Seção, julgado em 13/9/2023, DJe de 3/10/2023.) No entanto, a orientação desta Corte Superior é no sentido de que a concessão de salvo-conduto em casos análogos exige a comprovação cumulativa de diversos requisitos por meio de prova pré-constituída, com finalidade de se garantir a necessária segurança jurídica e tutelar a saúde pública, evitando o desvirtuamento da medida (HC n. 935.305, Ministro Messod Azulay Neto, DJEN de 04/07/2025.). De acordo com o precedente citado, os requisitos que devem ser demonstrados para a concessão de salvo-conduto incluem, mas não se limitam a: a) a posse de capacidade técnica para o manejo e a extração artesanal dos produtos a partir das plantas; b) a existência de autorização especial da ANVISA para a importação excepcional de produtos derivados de Cannabis, com a respectiva validade, conforme a RDC n. 660/2022 da ANVISA; c) a apresentação de prescrição médica emitida por profissional habilitado que realize o acompanhamento contínuo do paciente, contendo o nome do paciente e do produto, a posologia, a data, a assinatura e o número do registro profissional do prescritor em seu conselho de classe, nos termos da RDC n. 660/2022; d) a apresentação de um laudo médico detalhado, assinado por profissional especializado no tipo específico de patologia que acomete o paciente, que inclua o histórico médico pormenorizado, ateste fundamentadamente a eficácia e a segurança do tratamento com Cannabis, comprove a inexistência de fármacos similares fornecidos pelo Sistema Único de Saúde - SUS, e demonstre a imprescindibilidade clínica do tratamento, indicando quais tratamentos convencionais já foram realizados sem sucesso; e) a existência de um laudo técnico firmado por engenheiro agrônomo, detalhando a quantidade de sementes e plantas necessárias anualmente para o tratamento indicado, devidamente assinado, datado e em consonância com a prescrição médica; e f) a comprovação da incapacidade financeira de custear a importação e aquisição do medicamento prescrito em sua versão industrializada. A ausência de qualquer um desses elementos probatórios preexistentes compromete a concessão do salvo-conduto. No caso específico do paciente, a documentação nos autos, embora relevante, é insuficiente para preencher todos os critérios cumulativos que autorizariam a concessão do salvo-conduto por meio de prova pré-constituída. Em relação ao laudo técnico firmado por engenheiro agrônomo, detalhando a quantidade de sementes e plantas necessárias anualmente para o tratamento indicado, devidamente assinado, datado e em consonância com a prescrição médica, o paciente apresentou um laudo sem assinatura com certificado digital, o que impede a conferência da autenticidade do documento. Além disso, o laudo médico apresentado não é assinado por profissional especializado no tipo específico de patologia que acomete o paciente, haja vista que a profissional não tem qualquer especialização. Nesse sentido: "DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. IMPORTAÇÃO DE SEMENTES E CULTIVO DE CANNABIS SATIVA PARA FINS MEDICINAIS. SALVO-CONDUTO. AUSÊNCIA DE PROVA PRÉ-CONSTITUÍDA. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE FLAGRANTE. AGRAVO DESPROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto contra decisão que não conheceu do habeas corpus, em razão da ausência de ilegalidade que justificasse a concessão da ordem de ofício. O pedido visava à concessão de salvo-conduto para que agentes policiais se abstivessem de atentar contra a liberdade de locomoção do paciente, em razão importação, do plantio e utilização da cannabis sativa para tratamento medicinal. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em saber se é possível a concessão de salvo-conduto para o cultivo de cannabis sativa para fins medicinais, sem a devida comprovação documental exigida, como autorização da ANVISA e laudo médico atualizado atualizados e laudo técnico sobre o cultivo. III. Razões de decidir 3. A decisão agravada foi mantida por seus próprios fundamentos, considerando que a documentação apresentada pelo agravante estava desatualizada e insuficiente para comprovar a necessidade do tratamento e a capacidade técnica para o cultivo. 4. A ausência de autorização da ANVISA, laudo médico atualizado e laudo técnico de engenheiro agrônomo inviabiliza a concessão do salvo-conduto, conforme entendimento consolidado do Tribunal Superior. IV. Dispositivo e tese 5. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: "1. A concessão de salvo-conduto para o cultivo de cannabis sativa para fins medicinais exige documentação idônea e atualizada, incluindo autorização da ANVISA e laudos médicos e técnicos. 2. A ausência de tais documentos inviabiliza a concessão do salvo-conduto." Dispositivos relevantes citados: Não há dispositivos legais específicos citados. Jurisprudência relevante citada: STJ, AgRg no HC 754.849/SP, Rel. Min. Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 07.05.2024; STJ, AgRg no RHC 198.124/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 02.09.2024." (AgRg no HC n. 948.863/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 26/3/2025, DJEN de 8/4/2025.) Ante o exposto, denego o habeas corpus. Publique-se. Intimem-se. EMENTA