REsp 2061816 - DECISAO
Diante da natureza do seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH e da aplicação da boa-fé objetiva, os vícios construtivos do imóvel que não resultam de atos do segurado ou de desgaste natural configuram risco coberto pela apólice do ramo 66; assim, o acórdão do Tribunal a quo que afastou a cobertura foi...
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- Parties
- Recorrente: Cacilda Bernardo; Interveniente: Caixa Econômica Federal; Polo Passivo: Seguradora
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 28 August 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgado (provimento)
- Outcome
- provimento do recurso especial para reconhecer existência de cobertura securitária para vícios construtivos e determinar o retorno dos autos ao juízo de primeira instância
- Legal Topics
- Vícios De Construção, Seguro Habitacional Obrigatório, Cobertura Securitária, Sistema Financeiro Da Habitação (sfh), Apólice Ramo 66, Boa Fé Objetiva
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Summary, issues, holding and outcome
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Parties
Cacilda Bernardo
Recorrente
Caixa Econômica Federal
Interveniente
Seguradora
Polo Passivo
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgado (provimento)
Legal Issues
- 1 existência de cobertura securitária para vícios construtivos em contrato de financiamento habitacional (SFH, apólice ramo 66)
- 2 legitimidade da Caixa Econômica Federal para intervir representando o FCVS e deslocar competência
- 3 interpretação da cláusula 3ª das Condições Particulares da Circular nº 111 da SUSEP
Ratio Decidendi
Diante da natureza do seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH e da aplicação da boa-fé objetiva, os vícios construtivos do imóvel que não resultam de atos do segurado ou de desgaste natural configuram risco coberto pela apólice do ramo 66; assim, o acórdão do Tribunal a quo que afastou a cobertura foi reformado e os autos remetidos ao juízo de primeiro grau para prosseguimento.
Court Disposition
provimento do recurso especial para reconhecer existência de cobertura securitária para vícios construtivos e determinar o retorno dos autos ao juízo de primeira instância
Orders
- Dar provimento ao recurso especial
- Reformar o acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região no ponto que afastou a cobertura da apólice (ramo 66) para vícios construtivos
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial manejado por Cacilda Bernardo com fundamento no art. 105, III, a e c, da CF, contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, assim ementado (fl. 992): SFH. SEGURO. VÍCIOS DE CONSTRUÇÃO. CEF. LEGITIMIDADE. APÓLICE PÚBLICA. DANOS NÃO COBERTOS. 1. Desde que o contrato conte com a cobertura do FCVS e se trate de apólice pública (ramo 66), independente da data de assinatura, a Caixa Econômica Federal, na qualidade de representando judicial do FCVS, está autorizada a intervir nas ações e deslocar a competência para a Justiça Federal. 2. A Caixa Econômica Federal está autorizada a intervir nas ações e deslocar a competência para a Justiça Federal, mormente após a edição das Medidas Provisórias n.ºs 513/2010 (Lei nº 12.409/2011) e 633/2013 (Lei nº13.000/2014). 3. Só se pode cogitar em cobertura securitária de houver previsão contratual expressa neste sentido. Opostos embargos de declaração, foram rejeitados (fls. 1.021/1.025). Nas razões do recurso especial, a parte agravante aponta, além de divergência jurisprudencial, violação aos arts. 50, 119 e 371 do CPC. Sustenta, em resumo: (I) a ausência de comprometimento do FCVS a ensejar o interesse jurídico da Caixa na demanda; e que (II) "as provas produzidas que constatam a existência de vícios construtivos na edificação das residências dos mutuários" (fl. 1.236), de modo que, "uma vez constatado os vícios oriundos da construção, estará configurada a responsabilidade da Seguradora, que integra o polo passivo da demanda de ação securitária" (fl. 1.238). Decisão de admissibilidade proferida às fls. 1.390/1.392, por meio da qual o Tribunal a quo negou seguimento ao reclamo no ponto em que discute matéria abarcada pelo Tema 1.011/STF, ao tempo em que o admitiu quanto ao restante do conteúdo recursal. É O RELATÓRIO. SEGUE A FUNDAMENTAÇÃO. De início, verifica-se que a insurgência comporta êxito. Com efeito, a questão cuja discussão ainda remanesce no feito, relativa à existência ou não de cobertura securitária para vícios construtivos no contrato de financiamento imobiliário, restou assim decidida pela Corte de origem (fls. 990/991): Os imóveis adquiridos através de financiamento habitacional no Sistema Financeiro da Habitação com Apólice do ramo 66 contam com cobertura securitária para os riscos previstos na cláusula 3º das Condições Particulares da Circular nº 111 da SUSEP durante a vigência contrato: CLÁUSULA 3ª - RISCOS COBERTOS 3.1 - Estão cobertos por estas Condições todos os riscos que possam afetar o objeto do seguro, ocasionando: a. incêndio; b. explosão; c. desmoronamento total; d. desmoronamento parcial, assim entendido a destruição ou desabamento de paredes, vigas ou outro elemento estrutural; e. ameaça de desmoronamento, devidamente comprovada; f. inundação ou alagamento. 3.2 - Com exceção dos riscos contemplados nas alíneas a e b do subitem 3.1, todos os citados no mesmo subitem deverão ser decorrentes de eventos de causa externa, assim entendidos os causados por forças que, atuando de fora para dentro, sobre o prédio, ou sobre o solo ou subsolo em que o mesmo se acha edificado, lhe causem danos, excluindo-se, por conseguinte, todo e qualquer dano sofrido pelo prédio ou benfeitorias que seja causado por seus próprios componentes, sem que sobre eles atue qualquer força anormal. Da leitura da cláusula terceira, conclui-se que a cobertura securitária abrange, exclusivamente, as avarias causadas por agentes externos, ou seja, aquelas que atuam sobre a edificação, não contemplando as situações em que o imóvel sofre os efeitos de eventual vício inerente à sua própria estrutura ou aqueles causados por reformas e alterações de projeto. Só se pode cogitar em cobertura securitária se houver previsão contratual expressa neste sentido. Assim, não restando caracterizada a presença de risco coberto pela Apólice, a sentença deve ser confirmada para excluir a cobertura securitária requerida. Denota-se, pois, que o Tribunal de origem concluiu pela inexistência de cobertura securitária para vícios construtivos no contrato de financiamento habitacional celebrado no âmbito do Sistema Financeiro de Habitação (apólice do ramo 66). Todavia, ao assim decidir, a instância recorrida dissentiu do entendimento firmado no âmbito deste Sodalício sobre o tema, segundo o qual os defeitos oriundos da construção do imóvel, que não decorrem de ação praticada pelo proprietário do bem ou do seu uso e desgaste natural, estão acobertados pelo seguro habitacional, não havendo falar na sua exclusão da abrangência da apólice. Nesse vértice, vejam-se: PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE MÚTUO HABITACIONAL. SISTEMA FINANCEIRO DA HABITAÇÃO (SFH). RESPONSABILIDADE DA SEGURADORA PELOS VÍCIOS DE CONSTRUÇÃO NO IMÓVEL FINANCIADO. COBERTURA SECURITÁRIA. ABRANGÊNCIA. PRECEDENTES. 1. Tendo o recurso sido interposto contra decisão publicada na vigência do Código de Processo Civil de 2015, devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele previsto, conforme Enunciado Administrativo n. 3/2016/STJ. 2. A jurisprudência desta Corte é no sentido de que os vícios construtivos estão cobertos pela apólice do seguro habitacional obrigatório, de forma que a exclusão da responsabilidade da seguradora deve se limitar aos vícios decorrentes de atos praticados pelo próprio segurado ou do uso e desgaste natural do bem. Nesse sentido: AgInt no AREsp n. 2.058.182/PR, rel. Min. Teodoro Silva Santos, Segunda Turma, DJe de 21/5/2024; AgInt no REsp n. 1.817.965/SP, rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, DJe de 23/8/2023; AgInt no AREsp n. 2.057.880/SP, rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, DJe de 18/8/2023. 3. Agravo interno não provido. (REsp n. 1.829.289/SP, relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 19/8/2024, DJe de 23/8/2024) AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. SEGURO OBRIGATÓRIO. SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. ALEGAÇÃO GENÉRICA DE OFENSA AO ART. 1.022 DO CPC/15. SÚMULA N. 284 DO STF. VICÍO DE CONSTRUÇÃO. EXCLUSÃO SECURITÁRIA. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Não obstante o recurso especial alegue violação ao art. 1.022 do Código de Processo Civil, não especifica quais os pontos do acórdão recorrido em relação aos quais haveria omissão, contradição, obscuridade, tampouco a relevância da análise dessas questões para o caso concreto. Portanto, o conhecimento desse capítulo recursal é obstado pela falta de delimitação da controvérsia, atraindo a aplicação da Súmula n. 284 do STF. 2. Nos termos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, "No contrato de seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH, a responsabilidade da seguradora apenas é excluída quando os vícios reclamados sejam decorrentes de atos do próprio segurado ou do uso e desgaste natural" (AgInt no REsp n. 1.445.272/PE, relator Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe de 20/3/2024.) 3. Agravo desprovido. (AgInt no AREsp n. 2.058.182/PR, relator Ministro Teodoro Silva Santos, Segunda Turma, julgado em 13/5/2024, DJe de 21/5/2024) Note-se que, anteriormente ao julgamento do CC 148.188/DF, que definiu a competência das turmas da Primeira Seção para a análise das demandas que tratam dessa matéria, a Segunda Seção deste Sodalício já possuía tal entendimento sobre o tema, conforme se verifica do seguinte acórdão: RECURSO ESPECIAL. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚM. 211/STJ. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. IMÓVEL ADQUIRIDO PELO SFH. ADESÃO AO SEGURO HABITACIONAL OBRIGATÓRIO. RESPONSABILIDADE DA SEGURADORA. VÍCIOS DE CONSTRUÇÃO (VÍCIOS OCULTOS). BOA-FÉ OBJETIVA. FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO. JULGAMENTO: CPC/15. 1. Ação de indenização securitária proposta em 11/03/2011, de que foi extraído o presente recurso especial, interposto em 12/07/2018 e concluso ao gabinete em 16/04/2019. 2. O propósito recursal é decidir se os prejuízos resultantes de sinistros relacionados a vícios estruturais de construção estão acobertados pelo seguro habitacional obrigatório, vinculado a crédito imobiliário concedido para aquisição de imóvel pelo Sistema Financeiro da Habitação - SFH. 3. A ausência de decisão acerca dos dispositivos legais indicados como violados impede o conhecimento do recurso especial (súm. 211/STJ). 4. Devidamente analisadas e discutidas as questões de mérito, e suficientemente fundamentado o acórdão recorrido, de modo a esgotar a prestação jurisdicional, não há falar em violação do art. 1.022 do CPC/15. 5. Em virtude da mutualidade ínsita ao contrato de seguro, o risco coberto é previamente delimitado e, por conseguinte, limitada é também a obrigação da seguradora de indenizar; mas o exame dessa limitação não pode perder de vista a própria causa do contrato de seguro, que é a garantia do interesse legítimo do segurado. 6. Assim como tem o segurado o dever de veracidade nas declarações prestadas, a fim de possibilitar a correta avaliação do risco pelo segurador, a boa-fé objetiva impõe ao segurador, na fase pré-contratual, o dever, dentre outros, de dar informações claras e objetivas sobre o contrato, para permitir que o segurado compreenda, com exatidão, o verdadeiro alcance da garantia contratada, e, nas fases de execução e pós-contratual, o dever de evitar subterfúgios para tentar se eximir de sua responsabilidade com relação aos riscos previamente determinados. 7. Esse dever de informação do segurador ganha maior importância quando se trata de um contrato de adesão - como, em regra, são os contratos de seguro -, pois se trata de circunstância que, por si só, torna vulnerável a posição do segurado. 8. A necessidade de se assegurar, na interpretação do contrato, um padrão mínimo de qualidade do consentimento do segurado, implica o reconhecimento da abusividade formal das cláusulas que desrespeitem ou comprometam a sua livre manifestação de vontade, enquanto parte vulnerável. 9. No âmbito do SFH, o seguro habitacional ganha conformação diferenciada, uma vez que integra a política nacional de habitação, destinada a facilitar a aquisição da casa própria, especialmente pelas classes de menor renda da população, tratando-se, pois, de contrato obrigatório que visa à proteção da família e à salvaguarda do imóvel que garante o respectivo financiamento imobiliário, resguardando, assim, os recursos públicos direcionados à manutenção do sistema. 10. A interpretação fundada na boa-fé objetiva, contextualizada pela função socioeconômica que desempenha o contrato de seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH, leva a concluir que a restrição de cobertura, no tocante aos riscos indicados, deve ser compreendida como a exclusão da responsabilidade da seguradora com relação aos riscos que resultem de atos praticados pelo próprio segurado ou do uso e desgaste natural e esperado do bem, tendo como baliza a expectativa de vida útil do imóvel, porque configuram a atuação de forças normais sobre o prédio. 11. Os vícios estruturais de construção provocam, por si mesmos, a atuação de forças anormais sobre a edificação, na medida em que, se é fragilizado o seu alicerce, qualquer esforço sobre ele - que seria naturalmente suportado acaso a estrutura estivesse íntegra - é potencializado, do ponto de vista das suas consequências, porque apto a ocasionar danos não esperados na situação de normalidade de fruição do bem. 12. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido. (REsp n. 1.804/965/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 27/5/2020, DJe de 1/6/2020) Portanto, diante do entendimento pautado na boa-fé objetiva e natureza do contrato em discussão, deve ser reformado o aresto combatido no ponto em que assentou a ausência de cobertura da apólice pública (ramo 66) para os defeitos de construção. ANTE O EXPOSTO, dá-se provimento ao recurso especial para reformar o acórdão a quo, de ordem a reconhecer a existência de cobertura securitária na hipótese de vícios construtivos, determinando a remessa dos autos ao Juízo de primeiro grau, a fim de que, a partir dessa premissa, seja dado prosseguimento ao feito. Publique-se. EMENTA