AREsp 2553463 - DECISAO
Conheceu-se do agravo, mas negou-se provimento porque a pretensão de desconstituição da condenação demandaria reexame do conjunto fático-probatório, vedado pelo entendimento consolidado na Súmula 7/STJ; a dosimetria da pena estava dentro da discricionariedade vinculada do julgador, com fundamentação adequada, e a...
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- Parties
- Recorrente/agravante: HUDSON NUNES MACHADO; Interveniente: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 September 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão Que Conheceu Do Agravo E Negou Lhe Provimento (admissibilidade E Mérito Do Agravo No Stj)
- Outcome
- Conheço do agravo e nego-lhe provimento
- Legal Topics
- Violência Doméstica E Familiar Contra a Mulher, Contravenção Penal (vias De Fato), Dosimetria Da Pena, Danos Morais, Admissibilidade De Recurso Especial, Súmula 7/stj, Súmula 284/stf
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Parties
HUDSON NUNES MACHADO
Recorrente/agravante
Ministério Público Federal
Interveniente
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão Que Conheceu Do Agravo E Negou Lhe Provimento (admissibilidade E Mérito Do Agravo No Stj)
Legal Issues
- 1 insuficiência probatória para reconhecimento de autoria e materialidade
- 2 violação do art. 386, VII, do CPP
- 3 violação do art. 59 do CP (dosimetria)
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo, mas negou-se provimento porque a pretensão de desconstituição da condenação demandaria reexame do conjunto fático-probatório, vedado pelo entendimento consolidado na Súmula 7/STJ; a dosimetria da pena estava dentro da discricionariedade vinculada do julgador, com fundamentação adequada, e a insurgência quanto ao regime prisional e ao quantum dos danos morais careceu de indicação específica de dispositivos federais violados atraindo a Súmula 284/STF.
Court Disposition
Conheço do agravo e nego-lhe provimento
Orders
- Intimem-se
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto pela defesa de HUDSON NUNES MACHADO contra decisão que negou seguimento ao recurso especial interposto, com fundamento na alínea a do permissivo constitucional, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Território assim ementado (e-STJ fl. 234): PENAL E PROCESSUAL PENAL. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER. CONTRAVENÇÃO PENAL. VIAS DE FATO. AUTORIA E MATERIALIDADE. COMPROVAÇÃO. PROVA PRODUZIDA. DOSIMETRIA. ADEQUAÇÃO. DANO MORAL. QUANTUM. SENTENÇA MANTIDA. 1. Cuida-se de apelação criminal contra a sentença que condenou ora apelante, como incurso nas penas do art. 21 do Decreto-Lei nº 3.688/41 c/c arts. 5º e 7º da Lei 11.340/06, à pena de 01 (um) mês e 02 (dois) dias de prisão simples, em regime inicial semi-aberto, fixando ainda indenização mínima por danos morais à vítima no valor de 01 (um) salário-mínimo vigente na presente data, corrigido monetariamente pelo IGPM a partir da data do arbitramento (Súmula 362 do STJ), com juros de mora de 1% ao mês, a partir da data dos fatos (Súmula 54 do STJ). 2. A pretensão do apelante se funda em insuficiência probatória hábil ao reconhecimento de autoria e materialidade do delito e, superada esta questão, em inadequação da pena imposta ao sentenciado e em sua condenação a título de danos morais. 3. Trata-se a imputação acusatória da prática da infração penal de vias de fato, prevista no art. 21 da Lei de Contravenção Penal (Decreto-Lei nº 3.688/1941), e que consiste na prática de violência contra a pessoa sem produção de lesões corporais. 3.1. É da natureza do delito a inexistência de vestígios materiais que viabilizem a realização de exame de corpo de delito, daí porque a infração penal pode ser comprovada por qualquer meio de prova, mormente pelo depoimento das testemunhas que presenciaram o fato. 4. No caso dos autos o relato da testemunha ouvida em juízo é claro e contundente acerca do fato deduzido na inicial acusatória, inclusive por ter, na qualidade de motorista de transporte por aplicativo, conduzido a vítima ao local do fato, ter presenciado a agressão, que foi praticada no interior de seu veículo, e, após esta, ter conduzido a vítima à delegacia de polícia. 5. Mantém-se a pena privativa de liberdade fixada na sentença, porque de acordo com as circunstâncias do caso concreto, com adequada observância aos critérios de fixação previstos no Código Penal, considerando-se, no caso, a existência de circunstância desfavorável ao sentenciado. 5.1. Esta Corte já assentou que a prática do delito à vista ou na presença de crianças e adolescentes constitui fundamento idôneo para a majoração da pena base, tendo em vista o evidente abalo emocional a que são submetidos. 6. O Superior Tribunal de Justiça, no R Esp 1.675.874/MS, Tema nº 983 dos recursos repetitivos, decidiu pela possibilidade de o julgador fixar o valor de reparação mínima a título de danos morais em processos envolvendo violência doméstica e familiar contra a mulher, desde que haja pedido expresso na denúncia. 6.1. Mantido o valor mínimo arbitrado para indenização a título de danos morais, por não se mostrar, no caso, demasiadamente elevado, a fim de evitar o enriquecimento da vítima, tampouco baixo o suficiente para lhe retirar seu caráter punitivo. 7. Recurso conhecido e não provido. No recurso especial, a defesa aponta violação dos artigos 386, VII, do Código de Processo Penal e 59 do Código Penal. Sustenta a necessidade de absolvição diante da ausência de provas hábeis a sustentar a condenação. Alega a desproporcionalidade do aumento da pena-base, em razão de uma única circunstância judicial negativa. Pugna pelo abrandamento do regime prisional e redução do valor imposto a título de indenização por danos morais. Contrarrazões apresentadas às e-STJ fls. 273/276. Negou-se seguimento ao recurso especial com base nas Súmulas 7/STJ e 284/STF (e-STJ fls. 279/281). No agravo, o recorrente insiste na presença dos pressupostos de admissibilidade do recurso especial. O Ministério Público Federal se manifestou, às e-STJ fls. 315/316, pelo desprovimento do recurso. É o relatório. Decido. O agravo é cabível, tempestivo e foram impugnados os fundamentos da decisão agravada, motivo pelo qual conheço do recurso. No caso, o Tribunal a quo reconheceu a higidez das provas obtidas no curso da instrução, destacando que "o relato da testemunha ouvida em juízo é claro e contundente acerca do fato deduzido na inicial acusatória, inclusive por ter, na qualidade de motorista de transporte por aplicativo, conduzido a vítima ao local do fato, ter presenciado a agressão, que foi praticada no interior de seu veículo, e, após esta, ter conduzido a vítima à delegacia de polícia" (e-STJ fl. 273). No contexto, a desconstituição do julgado, tal como pretende a defesa, não pode ser realizada sem nova incursão no conjunto fático-probatório, providência incabível em sede de recurso especial, ante o óbice contido na Súmula 7/STJ. A respeito: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO CONFIGURADO. INÉPCIA DA DENÚNCIA. NÃO OCORRÊNCIA. DESCRIÇÃO SUFICIENTE DA CONDUTA. MATÉRIA PRECLUSA. PROLATAÇÃO DE SENTENÇA CONDENATÓRIA. ABSOLVIÇÃO. SÚMULA 7/STJ. 1. Não configura a negativa de prestação jurisdicional a adoção de solução jurídica contrária aos interesses da parte, tendo em vista que foram apreciados, de modo fundamentado, todos os pontos necessários ao deslinde da controvérsia. 2. Não há falar em inépcia da denúncia que particulariza detalhadamente as condutas do recorrente, relacionadas às ameaças contra sua ex-companheira, mencionando os indícios de autoria e materialidade, permitindo o pleno exercício da ampla defesa e do contraditório, em conformidade com o art. 41 do Código de Processo Penal. 3. A desconstituição das premissas fáticas do julgado, para fins de absolvição, demandaria o revolvimento do conjunto fático-probatório, inadmissível pela via do recurso especial, a teor da Súmula 7/STJ. 4. "A jurisprudência desta Corte Superior orienta que, em casos de violência doméstica, a palavra da vítima tem especial relevância, haja vista que em muitos casos ocorrem em situações de clandestinidade" (HC 615.661/MS, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 24/11/2020, DJe 30/11/2020). 5. Agravo regimental improvido. (AgRg no AREsp n. 1.945.220/DF, relator Ministro Olindo Menezes (Desembargador Convocado do TRF 1ª Região), Sexta Turma, julgado em 7/6/2022, DJe de 10/6/2022). Em relação à dosimetria da pena, importante lembrar que está inserida no âmbito de discricionariedade do julgador, estando atrelada às particularidades fáticas do caso concreto e subjetivas dos agentes, elementos que somente podem ser revistos por esta Corte em situações excepcionais, quando malferida alguma regra de direito. Nessa linha, a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça é no sentido de que a pena-base não pode ser fixada acima do mínimo legal com fundamento em elementos constitutivos do crime ou com base em referências vagas, genéricas, desprovidas de fundamentação objetiva para justificar a sua exasperação. Precedentes: HC n. 272.126/MG, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 8/3/2016, DJe 17/3/2016; REsp n. 1.383.921/RN, Relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 16/6/2015, DJe 25/6/2015; HC n. 297.450/RS, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 21/10/2014, DJe 29/10/2014. Salienta-se que a ponderação das circunstâncias judiciais não constitui mera operação aritmética em que se atribuem pesos absolutos a cada uma delas, mas reflete exercício de discricionariedade, devendo o julgador pautar-se pelo princípio da proporcionalidade e, também, pelo elementar senso de justiça. Assim, não há falar em um critério matemático impositivo estabelecido pela jurisprudência desta Corte, mas, sim, em um controle de legalidade do critério eleito pela instância ordinária, de modo a averiguar se a pena-base foi estabelecida mediante o uso de fundamentação idônea e concreta (discricionariedade vinculada) (AgRg no HC n. 603.620/MS, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, DJe 9/10/2020). Nessa esteira, considerando o silêncio do legislador, a doutrina e a jurisprudência estabeleceram dois critérios de incremento da pena-base, por cada circunstância judicial valorada negativamente, sendo o primeiro de 1/6 (um sexto) da mínima estipulada, e outro de 1/8 (um oitavo), a incidir sobre o intervalo de condenação previsto no preceito secundário do tipo penal incriminador (ut, AgRg no AgRg nos EDcl no AREsp 1.617.439/PR, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, Quinta Turma, DJe 28/9/2020). Precedentes: AgRg no REsp 1.986.657/DF, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, Quinta Turma, julgado em 5/4/2022, DJe 11/4/2022; AgRg no AREsp 1.995.699/SP, Rel. Ministro JESUÍNO RISSATO (Desembargador convocado do TJDFT), Quinta Turma, julgado em 5/4/2022, DJe 19/4/2022. Diante disso, a exasperação superior às referidas frações, para cada circunstância, deve apresentar fundamentação adequada e específica, a qual indique as razões concretas pelas quais a conduta do agente extrapolaria a gravidade inerente ao teor da circunstância judicial. Ressalta-se que o réu não tem direito subjetivo à utilização das referidas frações, não sendo tais parâmetros obrigatórios, porque o que se exige das instâncias ordinárias é a fundamentação adequada e a proporcionalidade na exasperação da pena. Na situação em apreço, observa-se que, na individualização da pena da ora agravante, a Corte estadual entendeu pela utilização de fração inferior a 1/8 sobre a diferença entre as penas mínima e máxima em abstrato, previstas no preceito secundário do crime imputado, sem destoar, portanto, da mansa orientação jurisprudencial. No que concerne à irresignação com o regime prisional fixado e o valor arbitrado para a indenização por danos morais, constata-se que a parte recorrente não indicou, com a devida clareza e objetividade, como lhe competia, os dispositivos da legislação federal pertinentes tidos por malferidos pelo Tribunal de origem, atraindo, assim, a incidência, por analogia, a Súmula n. 284 do Supremo Tribunal Federal: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia" . Como é cediço, "a admissibilidade do recurso especial exige a clara indicação dos dispositivos supostamente vulnerados, o que não se observou na hipótese em testilha, circunstância que atrai a incidência da Súmula n. 284/STF devido à deficiência na fundamentação do pedido" (AgRg no REsp n. 1.359.695/SC, Relator Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 19/10/2017, DJe 27/10/2017). Ressalto que, seja pela alínea a, seja pela alínea c do permissivo constitucional, é necessária a indicação do dispositivo legal tido como violado ou em relação ao qual foi dada interpretação divergente. Com efeito, segundo a jurisprudência do STJ, "o especial é recurso de fundamentação vinculada, não lhe sendo aplicável o brocardo iura novit curia e, portanto, ao relator, por esforço hermenêutico, não cabe extrair da argumentação qual dispositivo teria sido supostamente contrariado a fim de suprir deficiência da fundamentação recursal, cuja responsabilidade é inteiramente do recorrente" (STJ, AgInt no AREsp n. 1.411.032/SP, Relator Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, Quarta Turma, DJe de 30/9/2019). Registre-se, ainda, que "a existência de dispositivos legais citados ao longo das ementas de acórdãos paradigmas colacionados na petição de recurso especial não afasta a necessidade de o recorrente indicar de forma específica, em seu próprio arrazoado recursal, qual seria o dispositivo legal tido por violado ou objeto da divergência interpretativa" (STJ, AgInt nos EDcl no REsp n. 1.526.780/PE, Relator Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, Segunda Turma , DJe de 30/11/2016). Ante o exposto, conheço do agravo para negar-lhe provimento. Intimem-se. EMENTA