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Superior Tribunal de Justiça

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01

Holding and result

O Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao recurso especial do INSS aplicando a tese vinculante do Tema 692/STJ e o art. 115, II, da Lei 8.213/1991, decidindo que a reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela obriga o autor a devolver os valores recebidos, permitindo que a devolução seja realizada por meio de desconto que não exceda 30% da importância de eventual benefício ainda em pagamento, e reformando o acórdão que havia dispensado a restituição com base em mudanças jurisprudenciais anteriores.

Court disposition

recurso especial provido

Orders

  • Determinar a devolução dos valores dos benefícios previdenciários recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago.

02

Material facts

Parties

Instituto Nacional do Seguro Social - INSS

Recorrente

segurado

Recorrido

Amounts and remedies

  • Percentual De Desconto Máximo: % 30

03

Procedural history

  1. Posture

    Recurso Especial / Julgamento

04

Questions and positions

Legal issues

Party arguments

Applicant
O INSS sustentou violação de dispositivos do CPC (art. 1.022, II; arts. 297, parágrafo único, 520 I e II; art. 300, § 3º) e do Código Civil (arts. 876, 884 e 885) e do Decreto-Lei n. 4.657/1942, arguindo que a decisão negou a restituição de valores e que a legislação impõe a devolução dos valores percebidos por força de tutela antecipada revogada, caracterizando enriquecimento sem causa, não sendo suficiente alegar boa-fé para afastar a restituição
Respondent
O Tribunal de origem e a parte recorrida defenderam a impossibilidade de devolução em razão de que os valores foram recebidos em 2013 por decisão judicial à época segundo jurisprudência vigente, tratando-se de benefícios de natureza alimentar; invocaram princípios da segurança jurídica, proteção da confiança, razoabilidade e dignidade da pessoa humana, e a ausência de má-fé do beneficiário

05

Court’s reasoning

  1. 01

    Tema 692/STJ (REsp n. 1.401.560/MT) e Pet n. 12.482/DF

    A reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela final obriga o autor da ação a devolver os valores dos benefícios previdenciários ou assistenciais recebidos, podendo a devolução ser feita por desconto que não exceda 30% do benefício ainda pago

  2. 02

    art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991

    Na hipótese de cessação do benefício pela revogação da decisão judicial que determinou sua implantação, os valores recebidos devem ser devolvidos

  3. 03

    decisão do Tribunal de origem e referido no acórdão

    Princípios da dignidade da pessoa humana, segurança jurídica, proteção da confiança e razoabilidade devem ser considerados na aplicação das regras de restituição

06

Ratio, limits and disposition

Ratio decidendi

O Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao recurso especial do INSS aplicando a tese vinculante do Tema 692/STJ e o art. 115, II, da Lei 8.213/1991, decidindo que a reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela obriga o autor a devolver os valores recebidos, permitindo que a devolução seja realizada por meio de desconto que não exceda 30% da importância de eventual benefício ainda em pagamento, e reformando o acórdão que havia dispensado a restituição com base em mudanças jurisprudenciais anteriores.

Obiter and limits

  • Discussão sobre modulação de efeitos em caso de mudança superveniente de jurisprudência (art. 927, § 3º, CPC)
  • Observações sobre a ausência de repercussão geral pelo STF no Tema 799/ARE 722.421/MG e inaplicabilidade da Súmula 126/STJ em razão da natureza infraconstitucional da matéria

Court disposition

recurso especial provido

  • Determinar a devolução dos valores dos benefícios previdenciários recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago.

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DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por Instituto Nacional do Seguro Social - INSS com fundamento no art. 105, III, a, da CF, desafiando acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, assim ementado (fls. 556/557): Apelação cível. Ação acidentária. INSS. Novo julgamento. Devolução de valores. Antecipação de tutela revogada. Impossibilidade, no concreto. Considerando a orientação jurisprudencial vigente à época da decisão que antecipou os efeitos da tutela, além dos princípios da segurança jurídica, proteção da confiança, da razoabilidade e da dignidade da pessoa humana, aliado às peculiaridades do caso concreto, inviável a devolução. Inaplicabilidade do entendimento fixado pelo Resp. nº 1.401.560/MT, pacificado em 10/2015. Sentença que julga improcedente o pedido inicial e revoga a tutela antecipada concedida. Restituição. Impossibilidade. Não se pode desconsiderar que o segurado recebeu os valores do benefício previdenciário, de nítida índole alimentar, no ano de 2013, em decorrência de decisão judicial que antecipou os efeitos da tutela, segundo entendimento jurisprudencial então vigente. Conclui-se, nesse contexto, que inexistem motivos que justifiquem a reversão do julgamento anteriormente proferido por este grupo. Decisão mantida em juízo de retratação. Nas razões do recurso especial, a parte recorrente aponta violação aos seguintes

dispositivos: I - art. 1.022, II, do CPC, ao argumento de que o acórdão foi omisso na apreciação da legislação que determina a devolução dos valores recebidos quando a antecipação de tutela é revogada no processo judicial; II - arts. 297, parágrafo único, 520, I e II, e 300, § 3º, do CPC, ao argumento de que a decisão recorrida negou a restituição dos valores, incorrendo em negativa de vigência da legislação nacional. Aduz, ainda, que, mesmo se tendo recebido o valor de boa-fé, ao cidadão não é dado desconhecer a lei e, por isso, auferir proveitos indevidos. Para tanto, sustenta que "a tutela de urgência de natureza antecipada não será concedida quando houver perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão" (fl. 523); e III - arts. 876, 884 e 885 do Código Civil e art. 3º do Decreto-Lei n. 4.657/1942, ao argumento de que a parte autora está diante do recebimento de algo que não lhe era devido, configurando enriquecimento sem causa, o qual é vedado pelo ordenamento jurídico. Para tanto, aduz que "todo aquele que recebeu o que lhe não era devido fica obrigado a restituir" (fl. 523). É O RELATÓRIO. SEGUE A FUNDAMENTAÇÃO. A irresignação comporta acolhida. No caso em questão, inexistem omissão, contradição, obscuridade ou erro material, uma vez que, pela leitura do inteiro teor do acórdão embargado, depreende-se que este apreciou devidamente a matéria em debate e analisou de

forma exaustiva, clara e objetiva as questões relevantes para o deslinde da controvérsia. Observa-se que o recurso especial traz questão já solucionada pelo rito repetitivo (Tema 692/STJ), em que foi firmada a tese de que "a reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela final obriga o autor da ação a devolver os valores dos benefícios previdenciários ou assistenciais recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% (trinta por cento) da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago". Eis a ementa da julgado que traz o mencionado preceito: PROCESSUAL CIVIL. PROPOSTA DE REVISÃO DO ENTENDIMENTO FIRMADO NO TEMA REPETITIVO 692/STJ (RESP N. 1.401.560/MT). ART. 927, § 4º, DO CPC/2015. ARTS. 256-S, 256-T, 256-U E 256-V DO RISTJ. DEVOLUÇÃO DE VALORES DE BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS RECEBIDOS POR FORÇA DE DECISÃO LIMINAR POSTERIORMENTE REVOGADA. ADVENTO DE NOVA LEGISLAÇÃO. ART. 115, INC. II, DA LEI N. 8.213/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 13.846/2019. TEMA N. 799/STF (ARE 722.421/MG): POSSIBILIDADE DA DEVOLUÇÃO DE VALORES RECEBIDOS EM VIRTUDE DE TUTELA ANTECIPADA POSTERIORMENTE REVOGADA. NATUREZA INFRACONSTITUCIONAL. QUESTÃO DE ORDEM JULGADA NO SENTIDO DA REAFIRMAÇÃO, COM AJUSTES REDACIONAIS, DO PRECEDENTE FIRMADO NO TEMA REPETITIVO N. 692/STJ.

1. A presente questão de ordem foi proposta com a finalidade de definir se o entendimento firmado no Tema Repetitivo 692/STJ (REsp n. 1.401.560/MT) deve ser reafirmado, alterado ou cancelado, diante da variedade de situações que ensejam dúvidas quanto à persistência da orientação firmada pela tese repetitiva referida, bem como à jurisprudência do STF, estabelecida em sentido contrário, mesmo que não tendo sido com repercussão geral ou em controle concentrado de constitucionalidade.

2. O CPC/1973 regulamentava a matéria de forma clara, prevendo, em resumo, que a efetivação da tutela provisória corre por conta do exequente, e a sua eventual reforma restituiria as partes ao estado anterior à concessão, o que obrigaria o exequente a ressarcir eventuais prejuízos sofridos pelo executado. A mesma lógica foi mantida pelo legislador do CPC/2015. Por conta disso que sempre se erigiu como pressuposto básico do instituto da tutela de urgência a reversibilidade dos efeitos da decisão judicial.

3. O debate surgiu especificamente no que tange à aplicação de tal regulamentação no âmbito previdenciário. Ou seja, discutia-se se as normas específicas de tal área do direito trariam solução diversa da previsão de caráter geral elencada na legislação processual.

4. A razão histórica para o surgimento dessa controvérsia na área previdenciária consiste na redação original do art. 130 da Lei n. 8.213/1991, o qual dispunha que: "Ocorrendo a reforma da decisão, será suspenso o benefício e exonerado o beneficiário de restituir os valores recebidos". Nos idos de 1997, a Lei n. 9.528 alterou completamente a redação anterior, passando a valer a regra geral do CPC, na ausência de norma especial em sentido contrário no âmbito previdenciário.

5. A partir de então, começou a amadurecer a posição no sentido da necessidade de devolução dos valores recebidos em caso de revogação da tutela antecipada, o que redundou, em 2014, no entendimento vinculante firmado pelo STJ no Tema Repetitivo 692 (REsp n. 1.401.560/MT): "A reforma da decisão que antecipa a tutela obriga o autor da ação a devolver os benefícios previdenciários indevidamente recebidos.

6. Em 2018, esta Relatoria propôs a questão de ordem sob exame, diante da variedade de situações que ensejam dúvidas quanto à persistência da orientação firmada pela tese repetitiva referida, bem como à existência de alguns precedentes em sentido contrário no STF, mesmo não tendo sido com repercussão geral ou em controle concentrado de constitucionalidade. 7. À época, o art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991 que regulamenta a matéria no direito previdenciário trazia redação que não era clara e direta como a da legislação processual, uma vez que não referia expressamente a devolução de valores recebidos a título de antecipação dos efeitos da tutela posteriormente revogada. Tal fato, aliás, não passou despercebido pela Primeira Seção ao rejeitar os EDcl no REsp n. 1.401.560/MT fazendo menção a tal fato.

8. Foi essa redação pouco clara que gerou dúvidas e terminou ocasionando, em 2018, a propositura da questão de ordem ora sob julgamento.

9. A Medida Provisória n. 871/2019 e a Lei n. 13.846/2019, entretanto, trouxeram uma reformulação da legislação previdenciária, e o art. 115, inc. II, passou a não deixar mais qualquer dúvida: Na hipótese de cessação do benefício previdenciário ou assistencial pela revogação da decisão judicial que determinou a sua implantação, os valores recebidos devem ser devolvidos à parte adversa.

10. Se o STJ o quando a legislação era pouco clara e deixava margem a dúvidas o já tinha firmado o entendimento vinculante no Tema Repetitivo 692/STJ, não é agora que deve alterar sua jurisprudência, justamente quando a posição da Corte foi sufragada expressamente pelo legislador reformador ao regulamentar a matéria 11. Trata-se, pois, de observância de norma editada regularmente pelo Congresso Nacional, no estrito uso da competência constitucional a ele atribuída, não cabendo ao Poder Judiciário, a meu sentir, reduzir a aplicabilidade do dispositivo legal em comento, decorrente de escolha legislativa explicitada com bastante clareza.

12. Ademais, a postura de afastar, a pretexto de interpretar, sem a devida declaração de inconstitucionalidade, a aplicação do art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991 pode ensejar questionamentos acerca de eventual inobservância do art. 97 da CF/1988 e, ainda, de afronta ao verbete vinculante n. 10 da Súmula do STF.

13. O STF adota o posicionamento referido em algumas ações originárias propostas (na maioria, mandados de segurança) em seu âmbito. Porém, não o faz com caráter de guardião da Constituição Federal, mas sim na análise concreta das ações originárias. A maioria dos precedentes do STF não diz respeito a lides previdenciárias e, além disso, são todos anteriores às alterações inseridas no art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991. Na verdade, atualmente o STF vem entendendo pela inexistência de repercussão geral nessa questão, por se tratar de matéria infraconstitucional, como se verá adiante.

14. O que se discute no caso em tela é a interpretação de artigo de lei federal, mais especificamente, o art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991 e vários dispositivos do CPC/2015. Assim, vale o entendimento do STJ sobre a matéria, pois, segundo o art. 105 da Carta Magna, é esta Corte a responsável pela uniformização da interpretação da legislação infraconstitucional no país.

15. A propósito, o STF, ao julgar o Tema 799 da Repercussão Geral (ARE 722.421/MG, j. em 19/3/2015), já firmou expressamente que a questão não é constitucional e deve, portanto, ser deslindada nos limites da legislação infraconstitucional, o que foi feito com bastante clareza pelo legislador ao trazer a nova redação do art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991. No mesmo sentido, vide o RE 1.202.649 AgR (relator Ministro Celso de Mello, Segunda Turma, j. em 20/12/2019), e o RE 1.152.302 AgR (relator Ministro Marco Aurélio, Primeira Turma, j. em 28/5/2019).

16. Ao propor a questão de ordem, esta Relatoria citou as seguintes particularidades processuais que supostamente seriam aptas a ensejar uma consideração específica quanto à possibilidade de revisão do entendimento firmado no Tema 692/STJ: a) tutela de urgência concedida de ofício e não recorrida; b) tutela de urgência concedida a pedido e não recorrida; c) tutela de urgência concedida na sentença e não recorrida, seja por agravo de instrumento, na sistemática processual anterior do CPC/1973, seja por pedido de suspensão, conforme o CPC/2015; d) tutela de urgência concedida initio litis e não recorrida; e) tutela de urgência concedida initio litis, cujo recurso não foi provido pela segunda instância; f) tutela de urgência concedida em agravo de instrumento pela segunda instância; g) tutela de urgência concedida em primeiro e segundo graus, cuja revogação se dá em razão de mudança superveniente da jurisprudência então existente.

17. Quanto a elas, note-se que se trata basicamente do momento em que foi concedida e/ou revogada a tutela de urgência, se logo no início do feito, se na sentença, se na segunda instância, ou se apenas no STF ou no STJ. A ideia subjacente é que, em algumas hipóteses, a tutela de urgência já estaria, de certa forma, incorporada ao patrimônio jurídico da parte autora, e sua revogação poderia resultar em injustiça no caso concreto.

18. Tais situações, entretanto, são tratadas pela lei da mesma forma, não merecendo distinção do ponto de vista normativo. Ou seja, em qualquer desses casos, a tutela de urgência não deixa de ser precária e passível de modificação ou revogação a qualquer tempo, o que implicará o retorno ao estado anterior à sua concessão.

19. Situação diversa é a da tutela de urgência cuja revogação se dá em razão de mudança superveniente da jurisprudência então dominante. Nesses casos, a superação do precedente deverá ser acompanhada da indispensável modulação dos efeitos, a juízo do Tribunal que está promovendo a alteração jurisprudencial, como determina o art. 927, § 3º, do CPC. Assim, como diz a norma, o próprio juízo de superação "de jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores ou daquela oriunda de julgamento de casos repetitivos" deve ser acompanhado da modulação dos efeitos da alteração no interesse social e no da segurança jurídica. Dessa forma, uma eventual guinada jurisprudencial não resultará, em princípio, na devolução de valores recebidos por longo prazo devido à cassação de tutela de urgência concedida com base em jurisprudência dominante à época em que deferida, bastando que o tribunal, ao realizar a superação, determine a modulação dos efeitos.

20. Por fim, não há que se falar em modulação dos efeitos do julgado no caso em tela, uma vez que não se encontra presente o requisito do art. 927, § 3º, do CPC. Isso porque, no caso sob exame, não houve alteração, mas sim reafirmação da jurisprudência dominante do STJ.

21. Questão de ordem julgada no sentido da reafirmação da tese jurídica, com acréscimo redacional para ajuste à nova legislação de regência, nos termos a seguir: "A reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela final obriga o autor da ação a devolver os valores dos benefícios previdenciários ou assistenciais recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% (trinta por cento) da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago.". (Pet n. 12.482/DF, relator Ministro Og Fernandes, Primeira Seção, DJe de 24/05/2022) Ainda sobre a questão em debate, convém ressaltar que o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do ARE-RG 722421, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, já se pronunciou no sentido de que não existe repercussão geral quando a matéria versar sobre a possibilidade de devolução de valores recebidos em virtude de tutela antecipada posteriormente revogada, considerando-se que a solução da controvérsia envolve o exame de legislação infraconstitucional. Entretanto, a controvérsia dos presentes autos envolve discutir se o desconto de 30%, fixado no Tema 692/STJ , se aplicariam ou não aos benefícios de valor mínimo, em observância ao princípio da dignidade humana e do mínimo existencial. Na hipótese, a Corte de origem concluiu ( fls. 560/562): O Acórdão, cuja matéria está sob reanálise, a meu ver, não comporta retratação. Muito

embora atento ao Recurso Especial n. 1.401.560/MT (Tema 692), que aliás foi expressamente referido no acórdão, não se trata do seu descumprimento, apenas que a situação dos autos não é propriamente de revogação pura e simplesmente da tutela anteriormente concedida, por isso tenho que o caso dos autos não se enquadra na moldura do repetitivo. No caso dos autos, tenho me manifestado igualmente em casos similares, de que não é devida a devolução das parcelas alcançadas pela tutela antecipada para concessão do benefício inicialmente pleiteado, sem considerar que o segurado recebeu os valores de benefício previdenciário, de nítida índole alimentar, no ano de 2013, em decorrência de decisão judicial que antecipou os efeitos da tutela, segundo entendimento jurisprudencial então vigente e mediante a prova pré-constituída apresentada, que induziu verossimilhança as alegações a ponto de obter a chancela judicial. Assim, considerando a orientação jurisprudencial vigente à época da decisão que antecipou os efeitos da tutela, além dos princípios da segurança jurídica, proteção da confiança, da razoabilidade e da dignidade da pessoa humana, aliado às peculiaridades do caso concreto, inviável a devolução dos valores pretendidos, aplicando-se a orientação do julgado proferido pela Superior Instância em Out/2015 (Resp nº 1.401.560/MT), o qual vem orientando os julgados recentes desta Câmara, no

particular dos autos, implicaria ao segurado a condição de devedor frente ao ente previdenciário, desprovendo-lhe da própria condição alimentar do benefício que lhe foi alcançado. Logo, de rigor o reconhecimento da impossibilidade de cobrança dos valores alcançados em antecipação de tutela. Ademais, há que se considerar que o benefício acidentário foi concedido sob a égide da orientação jurisprudencial anterior no sentido de que os valores recebidos por meio de tutela antecipada revogada eram irrepetíveis, dada a sua natureza alimentar. (..) Assim, a devolução dos valores, no presente caso, salvo melhor juízo, merece temperança, pois o novel entendimento fixado pelo STJ, no Resp. nº 1.401.560/MT, embora não tenha havido modulação e o seu caráter vinculante, somente ganhou corpo e pacificação em outubro de 2015, enquanto a tutela deferida nestes autos é muito anterior, e com base em orientação então vigente, conforme referido. E, nesse contexto, diante de abrupta mudança da jurisprudência, entendo, atento ainda ao Julgamento do tema 692 STJ com o máximo respeito, há que se guardar respeito aos princípios da segurança jurídica e da proteção da confiança, assim como da razoabilidade e da dignidade da pessoa humana, dado o nítido caráter alimentar dessas espécies de benefícios. Apenas para relembrar, o Supremo Tribunal Federal, quando instado a decidir sobre o tema, em época

próxima ao julgado proferido pelo STJ, considerou inaplicável o artigo 115 da Lei nº 8.213/91 nas hipóteses de inexistência de má-fé do beneficiário. (..) Com tudo isso, então, e prevenindo-se, ainda, a imposição de condição de insolvente ao segurado pela satisfação de valores que despendeu em seu sustento em decorrência de impossibilidade de exercer seu trabalho, os quais foram recebidos de boa-fé e segundo orientação jurisprudencial vigente, reitero, sem afronta ao conteúdo do repetitivo, imperativo que seja mantido o entendimento da impossibilidade de repetição dos valores antecipados. À vista do exposto, voto por, em juízo de retratação, reexaminar o acórdão anteriormente proferido para manter o parcial provimento do apelo que declarou a impossibilidade de serem descontados do autor, os valores percebidos à título de tutela antecipada, posteriormente revogada. Nesse contexto, o Tribunal de origem, "afasta-se da orientação firmada no precedente qualificado do STJ, na medida em que, ao acrescentar uma hipótese de dispensa à devolução dos valores pagos por força de antecipação de tutela, posteriormente revogada, sem a declaração de inconstitucionalidade do dispositivo legal, cria uma exceção à regra da reversibilidade da medida antecipatória revogada, negando vigência à própria norma definida no art. 115, II, da LB, bem como afrontando o art. 927, III, do CPC/2015" (REsp n.

2.084.815/SC, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe de 20.10.2023). A propósito, anotem-se os seguintes julgados: PROCESSUAL CIVIL. PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE. VALORES PAGOS EM RAZÃO DE DECISÃO JUDICIAL PRECÁRIA. RESTITUIÇÃO AO ERÁRIO. CABIMENTO. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A DECISÃO ATACADA. APLICAÇÃO DE MULTA. ART. 1.021, § 4º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. DESCABIMENTO. I - Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada em 09.03.2016, o regime recursal será determinado pela data da publicação do provimento jurisdicional impugnado. In casu, aplica-se o Código de Processo Civil de 2015. II - É legítima a restituição ao Erário de valores pagos a segurado em razão do cumprimento de decisão judicial precária, posteriormente cassada em segundo grau de jurisdição. III - A restrição imposta pela Corte de origem, a fim de preservar remuneração não inferior ao salário mínimo após o desconto, "afasta-se da orientação firmada no precedente qualificado do STJ, na medida em que, ao acrescentar uma hipótese de dispensa à devolução dos valores pagos por força de antecipação de tutela, posteriormente revogada, sem a declaração de inconstitucionalidade do dispositivo legal, cria uma exceção à regra da reversibilidade da medida antecipatória revogada, negando

vigência à própria norma definida no art. 115, II, da LB, bem como afrontando o art. 927, III, do CPC/2015" (1ª T., REsp n. 2.084.815/SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, DJe de 20.10.2023). IV - Rejeitada a repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 799, é incabível eventual recurso extraordinário para discutir tal matéria, sendo, portanto, inaplicável a Súmula n. 126/STJ. V - Não apresentação de argumentos suficientes para desconstituir a decisão recorrida. VI - Em regra, descabe a imposição da multa, prevista no art. 1.021, § 4º, do Código de Processo Civil de 2015, em razão do mero improvimento do Agravo Interno em votação unânime, sendo necessária a configuração da manifesta inadmissibilidade ou improcedência do recurso a autorizar sua aplicação, o que não ocorreu no caso. VII - Agravo Interno improvido. (AgInt no REsp 2.095.191/PR, relatora Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, Dje 07/03/2024). PROCESSUAL CIVIL E PREVIDENCIÁRIO. VALORES PAGOS POR DECISÃO PRECÁRIA. DEVOLUÇÃO. SÚMULA 126 DO STJ. NÃO INCIDÊNCIA. TEMA 692 DO STJ. REAFIRMAÇÃO DE JURISPRUDÊNCIA: PET 12.482/DF. DESCONTO SOBRE BENEFÍCIOS DE VALOR MÍNIMO. POSSIBILIDADE.

1. No tocante ao tema da restituição de benefício previdenciário concedido por decisão judicial precária, não há falar em incidência da Súmula 126 do STJ diante do entendimento do Supremo Tribunal Federal no Tema 799 de que se trata de questão cuja natureza é infraconstitucional e a ela atribuem-se os efeitos da ausência de repercussão geral.

2. No julgamento da Pet n. 12.482/DF, a Primeira Seção desta Corte ratificou o entendimento anteriormente firmado no julgamento do Tema repetitivo n. 692 do STJ, segundo o qual "A reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela final obriga o autor da ação a devolver os valores dos benefícios previdenciários ou assistenciais recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% (trinta por cento) da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago".

3. O legislador, ao fixar um limite de até 30% para a realização do desconto nas situações em que o segurado ainda tiver percebendo um benefício, o fez estabelecendo a ponderação entre a exigibilidade da prestação pecuniária antecipada e a situação econômica do beneficiário que teve cassada a tutela judicial, dando certa margem de discricionariedade à Administração autárquica para a realização dos descontos sem deixar de levar em consideração a hipossuficiência do segurado e/ou dependente.

4. Caso em que o Tribunal de origem deu parcial provimento ao agravo de instrumento interposto pela autarquia por considerar que, não obstante a jurisprudência do STJ tenha se firmado no sentido de que a lei autoriza o desconto de até 30% do valor do benefício, a quantia resultante não pode ser inferior a um salário mínimo.

5. A interpretação adotada pela Corte Regional afasta-se da orientação firmada no precedente qualificado do STJ, na medida em que, ao acrescentar uma hipótese de dispensa à devolução dos valores pagos por força de antecipação de tutela, posteriormente revogada, sem a declaração de inconstitucionalidade do dispositivo legal, cria uma exceção à regra da reversibilidade da medida antecipatória revogada, negando vigência à própria norma definida no art. 115, II, da LB, bem como afrontando o art. 927, III, do CPC/2015, devendo, por isso, ser reformada.

6. Recurso especial provido. (REsp n. 2.084.815/RS, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe de 20/10/2023.) Assim, o acórdão recorrido aplicou, em menor extensão, a tese jurídica firmada no Tema n. 692/STJ. Ora, tratando-se de tese fixada em sede de Recurso Especial Repetitivo, sua observância é obrigatória pelos demais juízes e Tribunais, nos termos do artigo 927, III, do CPC. Nessa linha, o entendimento firmado pela Corte de origem, não está em conformidade com a intenção do legislador, uma vez que a Lei 8.213/91, expressamente autoriza que a restituição do pagamento judicial do benefício previdenciário ou assistencial, indevido ou além do devido, pode ser feito mediante desconto no benefício ativo em valor que não exceda 30% da sua importância, não impondo nenhuma outra restrição Assim, merece reforma o acórdão recorrido, eis que a questão em exame já se encontra pacificada por esta Corte Superior. ANTE O EXPOSTO, dou provimento ao recurso especial, para determinar a devolução dos valores dos benefícios previdenciários recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% (trinta por cento) da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago. Publique-se.

EMENTA

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Authorities

Authorities used by the court

Cases, legislation, regulations, and constitutional provisions identified in the available record.

REsp n. 1.401.560/MT (Tema 692/STJ)

Case cited

Pet n. 12.482/DF

Case cited

REsp n. 2.084.815/RS

Case cited

AgInt no REsp 2.095.191/PR

Case cited

ARE 722.421/MG (Tema 799/STF)

Case cited

art. 105, III, a, da Constituição Federal

Legislation

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art. 1.022, II, do CPC

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

arts. 297, parágrafo único, 520, I e II, e 300, § 3º, do CPC

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

arts. 876, 884 e 885 do Código Civil

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 3º do Decreto-Lei n. 4.657/1942

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 927, § 4º, do CPC/2015

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 927, § 3º, do CPC

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 97 da Constituição Federal

Legislation

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verbete vinculante n. 10 da Súmula do STF

Legislation

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