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Superior Tribunal de Justiça

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01

Holding and result

Conheceu-se do recurso especial e deu-se parcial provimento para determinar a devolução dos valores percebidos pelo recorrido em razão da antecipação de tutela posteriormente revogada, em conformidade com o entendimento firmado no Tema 692/STJ e reafirmado na Pet. n. 12.482/DF, permitindo, quando aplicável, o desconto em parcela que não exceda 30% do eventual benefício ainda pago.

Court disposition

Recurso especial conhecido e parcialmente provido

Orders

  • Conheço do recurso especial e dou-lhe parcial provimento para determinar a devolução dos valores percebidos pelo recorrido em razão da antecipação de tutela posteriormente revogada, nos termos do Tema 692 do STJ.
  • Publique-se. Intimem-se.

02

Material facts

Parties

Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)

Recorrente

autora

Recorrido

Amounts and remedies

  • Limite De Desconto Sobre Benefício: percent 30

03

Procedural history

  1. Posture

    Recurso Especial / Julgamento No Superior Tribunal De Justiça

04

Questions and positions

Legal issues

Party arguments

Applicant
O INSS alegou violação do art. 535 do CPC/1973 (art. 1.022 do CPC/2015) quanto ao prequestionamento e sustentou, com fundamento nos arts. 876, 884 e 885 do Código Civil e no art. 115 da Lei n. 8.213/1991, que os valores recebidos por força de decisão precária devem ser devolvidos para evitar enriquecimento ilícito, requerendo a reforma do acórdão para possibilitar o ressarcimento ou, subsidiariamente, anulação para reexame das questões suscitadas.
Respondent
O Tribunal de origem afastou a devolução, considerando desnecessária a restituição de valores percebidos de boa-fé em razão de sua natureza alimentar, entendendo que não se aplicaria o regime de devolução previsto no precedente do STJ no caso concreto.

05

Court’s reasoning

  1. 01

    REsp n. 1.401.560/MT (Tema 692/STJ) e Pet. n. 12.482/DF

    A reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela final obriga o autor da ação a devolver os valores dos benefícios previdenciários ou assistenciais recebidos

  2. 02

    art. 115, inciso II, Lei n. 8.213/1991 (redação pela Lei n. 13.846/2019)

    Na hipótese de cessação do benefício pela revogação da decisão judicial que determinou sua implantação, os valores recebidos devem ser devolvidos

  3. 03

    CPC/2015, art. 927, § 3º

    A modulação dos efeitos deve ser considerada quando houver superação de jurisprudência dominante, nos termos do art. 927, § 3º, do CPC/2015

  4. 04

    Enunciado Administrativo 3 e CPC/2015

    É exigido o cumprimento dos requisitos de admissibilidade recursal previstos no CPC/2015 para recursos interpostos sobre decisões publicadas a partir de 18/03/2016

06

Ratio, limits and disposition

Ratio decidendi

Conheceu-se do recurso especial e deu-se parcial provimento para determinar a devolução dos valores percebidos pelo recorrido em razão da antecipação de tutela posteriormente revogada, em conformidade com o entendimento firmado no Tema 692/STJ e reafirmado na Pet. n. 12.482/DF, permitindo, quando aplicável, o desconto em parcela que não exceda 30% do eventual benefício ainda pago.

Obiter and limits

  • A redação dada ao art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991 pela Lei n. 13.846/2019 confirmou a exigência de devolução prevista no precedente do STJ
  • Quando houver mudança superveniente de jurisprudência dominante, a superação deve ser acompanhada de modulação dos efeitos, a juízo do Tribunal que promove a alteração
  • O entendimento do STF em precedentes específicos não caracteriza, por si só, controle concentrado ou repercussão geral que afaste a aplicação do disposto no art. 115 da Lei 8.213/1991

Court disposition

Recurso especial conhecido e parcialmente provido

  • Conheço do recurso especial e dou-lhe parcial provimento para determinar a devolução dos valores percebidos pelo recorrido em razão da antecipação de tutela posteriormente revogada, nos termos do Tema 692 do STJ.
  • Publique-se. Intimem-se.

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DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) com fundamento no art. 105, inciso III, alínea a, da CF, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ/SP), assim ementado (fl. 196, e-STJ): Acidentaria - Mal colunar - Ausência de nexo causal - Amparo acidentário indevido Sentença reformada. Dou provimento aos recursos oficial e do INSS, para julgar o pedido improcedente, prejudicada a análise do apelo da autora, com observação. Embargos de declaração rejeitados (fls. 220-226, e-STJ). Em seu recurso especial (fls. 230-240, e-STJ), preliminarmente, o recorrente alega violação do artigo 535 do CPC/1973 (art. 1.022 do CPC/2015), "na medida em deixa de analisar as questões suscitadas nos declaratórios. .. o julgado recorrido deveria enfrentar toda a matéria sob o enfoque legal, implementando-se o requisito do prequestionamento, indispensável ao exercício da ampla defesa, na medida em que a jurisprudência das Cortes Superiores é no sentido de não admitir os recursos excepcionais quando ausente aquele requisito" (fl. 233, e-STJ). Quanto à questão de fundo, sustenta violação dos artigos: 876, 884 e 885, todos do Código Civil, além do artigo 115, da Lei n. 8.213/91, argumentando, em síntese, que os valores recebidos por força de decisão precária devem ser devolvidos, sob pena de se estar incentivando o vedado

o enriquecimento ilícito da parte. Requer, por fim, seja "a) reformar o v. aresto recorrido na parte em que afasta a possibilidade de o INSS ser ressarcido dos valores pagos indevidamente .. b) Subsidiariamente, caso o entendimento seja no sentido de que inobstante os embargos de declaração interpostos, a matéria não restou suficientemente prequestionada, que o presente recurso seja provido para o fim de anular o v. aresto proferido no julgamento dos declaratórios, com a devolução dos autos ao Tribunal "a quo" para que sejam enfrentadas as questões suscitadas naquele recurso, inclusive a matéria constitucional ali ventilada." (fl. 240, e-STJ) Sem contrarrazões (c.f. Certidão de fl. 247, e-STJ). Submetido a juízo de retratação, considerando o entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça quanto ao Tema 692, o acórdão recorrido foi mantido nos termos da ementa ora transcrita (fl. 302, e-STJ): Acidente do trabalho Benefício previdenciário Tutela antecipada Revogação Devolução de valores recebidos pelo segurado Reapreciação da matéria ante o entendimento divergente assentado pelo C. Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial n. 1.401.560/MT, Tema n 692, classificado como repetitivo, e reafirmado no julgamento de Questão de Ordem em 11.05.2022, com acórdão publicado em 24.05.2022 Cumprimento ao disposto no art. 1.040, inciso II, do CPC Acórdão proferido por esta

Corte de Justiça que afasta a obrigatoriedade de devolução dos valores recebidos de boa-fé e em razão de decisão judicial Conformidade com a jurisprudência do C. Supremo Tribunal Federal Manutenção da decisão colegiada anterior. Juízo positivo de admissibilidade à fl. 326-327, e-STJ. É o relatório. Passo a decidir. Conforme estabelecido pelo Plenário do STJ, "aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma do novo CPC" (Enunciado Administrativo 3). Nos termos do art. 932, III, do Código de Processo Civil de 2015, combinado com os arts. 34, XVIII, a, e 255, I, ambos do Regimento Interno desta Corte, o Relator está autorizado, por meio de decisão monocrática, a não conhecer de recurso inadmissível, prejudicado ou que não tenha impugnado especificamente os fundamentos da decisão recorrida. Inicialmente, afasta-se a alegada violação do artigo 535 do CPC/1973 (art. 1.022 do CPC/2015), porquanto o acórdão recorrido manifestou-se de maneira clara e fundamentada a respeito das questões relevantes para a solução da controvérsia. A tutela jurisdicional foi prestada de forma eficaz, não havendo razão para a anulação do acórdão proferido em sede de embargos de declaração Dito isso, quanto à questão de fundo, de pronto, verifica-se que a questão objeto do

apelo nobre, foi submetida à Primeira Seção dessa Corte Superior no julgamento do REsp n. 1.401.560/MT realizado pela sistemática dos recursos repetitivos (Tema n. 692), de relatoria do Ministro Sérgio Kukina (DJe de 13/10/2015), firmou entendimento no sentido de que a reforma da decisão que antecipa a tutela obriga o autor da ação a devolver os benefícios previdenciários indevidamente recebidos. Posteriormente, o referido Tema passou por revisão pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça. Assim, no julgamento da Pet n. 12.482/DF, de relatoria do Ministro Og Fernandes (DJe de 24/5/2022), revisou o entendimento já mencionado e firmou entendimento no sentido de que a reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela final obriga o autor da ação a devolver os valores dos benefícios previdenciários ou assistenciais recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% (trinta por cento) da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago. Confira-se: PROCESSUAL CIVIL. PROPOSTA DE REVISÃO DO ENTENDIMENTO FIRMADO NO TEMA REPETITIVO 692/STJ (RESP N. 1.401.560/MT). ART. 927, § 4º, DO CPC/2015. ARTS. 256-S, 256-T, 256-U E 256-V DO RISTJ. DEVOLUÇÃO DE VALORES DE BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS RECEBIDOS POR FORÇA DE DECISÃO LIMINAR POSTERIORMENTE REVOGADA. ADVENTO DE NOVA LEGISLAÇÃO. ART. 115, INC. II, DA LEI N. 8.213/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 13.846/2019. TEMA N. 799/STF (ARE 722.421/MG): POSSIBILIDADE DA DEVOLUÇÃO DE VALORES RECEBIDOS EM VIRTUDE DE TUTELA ANTECIPADA POSTERIORMENTE REVOGADA. NATUREZA INFRACONSTITUCIONAL. QUESTÃO DE ORDEM JULGADA NO SENTIDO DA REAFIRMAÇÃO, COM AJUSTES REDACIONAIS, DO PRECEDENTE FIRMADO NO TEMA REPETITIVO N. 692/STJ.

1. A presente questão de ordem foi proposta com a finalidade de definir se o entendimento firmado no Tema Repetitivo 692/STJ (REsp n. 1.401.560/MT) deve ser reafirmado, alterado ou cancelado, diante da variedade de situações que ensejam dúvidas quanto à persistência da orientação firmada pela tese repetitiva referida, bem como à jurisprudência do STF, estabelecida em sentido contrário, mesmo que não tendo sido com repercussão geral ou em controle concentrado de constitucionalidade.

2. O CPC/1973 regulamentava a matéria de forma clara, prevendo, em resumo, que a efetivação da tutela provisória corre por conta do exequente, e a sua eventual reforma restituiria as partes ao estado anterior à concessão, o que obrigaria o exequente a ressarcir eventuais prejuízos sofridos pelo executado. A mesma lógica foi mantida pelo legislador do CPC/2015. Por conta disso que sempre se erigiu como pressuposto básico do instituto da tutela de urgência a reversibilidade dos efeitos da decisão judicial.

3. O debate surgiu especificamente no que tange à aplicação de tal regulamentação no âmbito previdenciário. Ou seja, discutia-se se as normas específicas de tal área do direito trariam solução diversa da previsão de caráter geral elencada na legislação processual.

4. A razão histórica para o surgimento dessa controvérsia na área previdenciária consiste na redação original do art. 130 da Lei n. 8.213/1991, o qual dispunha que: "Ocorrendo a reforma da decisão, será suspenso o benefício e exonerado o beneficiário de restituir os valores recebidos". Nos idos de 1997, a Lei n. 9.528 alterou completamente a redação anterior, passando a valer a regra geral do CPC, na ausência de norma especial em sentido contrário no âmbito previdenciário.

5. A partir de então, começou a amadurecer a posição no sentido da necessidade de devolução dos valores recebidos em caso de revogação da tutela antecipada, o que redundou, em 2014, no entendimento vinculante firmado pelo STJ no Tema Repetitivo 692 (REsp n. 1.401.560/MT): "A reforma da decisão que antecipa a tutela obriga o autor da ação a devolver os benefícios previdenciários indevidamente recebidos.".

6. Em 2018, esta Relatoria propôs a questão de ordem sob exame, diante da variedade de situações que ensejam dúvidas quanto à persistência da orientação firmada pela tese repetitiva referida, bem como à existência de alguns precedentes em sentido contrário no STF, mesmo não tendo sido com repercussão geral ou em controle concentrado de constitucionalidade. 7. À época, o art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991 que regulamenta a matéria no direito previdenciário trazia redação que não era clara e direta como a da legislação processual, uma vez que não referia expressamente a devolução de valores recebidos a título de antecipação dos efeitos da tutela posteriormente revogada. Tal fato, aliás, não passou despercebido pela Primeira Seção ao rejeitar os EDcl no REsp n. 1.401.560/MT fazendo menção a tal fato.

8. Foi essa redação pouco clara que gerou dúvidas e terminou ocasionando, em 2018, a propositura da questão de ordem ora sob julgamento.

9. A Medida Provisória n. 871/2019 e a Lei n. 13.846/2019, entretanto, trouxeram uma reformulação da legislação previdenciária, e o art. 115, inc. II, passou a não deixar mais qualquer dúvida: Na hipótese de cessação do benefício previdenciário ou assistencial pela revogação da decisão judicial que determinou a sua implantação, os valores recebidos devem ser devolvidos à parte adversa.

10. Se o STJ quando a legislação era pouco clara e deixava margem a dúvidas já tinha firmado o entendimento vinculante no Tema Repetitivo 692/STJ, não é agora que deve alterar sua jurisprudência, justamente quando a posição da Corte foi sufragada expressamente pelo legislador reformador ao regulamentar a matéria.

11. Trata-se, pois, de observância de norma editada regularmente pelo Congresso Nacional, no estrito uso da competência constitucional a ele atribuída, não cabendo ao Poder Judiciário, a meu sentir, reduzir a aplicabilidade do dispositivo legal em comento, decorrente de escolha legislativa explicitada com bastante clareza.

12. Ademais, a postura de afastar, a pretexto de interpretar, sem a devida declaração de inconstitucionalidade, a aplicação do art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991 pode ensejar questionamentos acerca de eventual inobservância do art. 97 da CF/1988 e, ainda, de afronta ao verbete vinculante n. 10 da Súmula do STF.

13. O STF adota o posicionamento referido em algumas ações originárias propostas (na maioria, mandados de segurança) em seu âmbito. Porém, não o faz com caráter de guardião da Constituição Federal, mas sim na análise concreta das ações originárias. A maioria dos precedentes do STF não diz respeito a lides previdenciárias e, além disso, são todos anteriores às alterações inseridas no art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991. Na verdade, atualmente o STF vem entendendo pela inexistência de repercussão geral nessa questão, por se tratar de matéria infraconstitucional, como se verá adiante.

14. O que se discute no caso em tela é a interpretação de artigo de lei federal, mais especificamente, o art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991 e vários dispositivos do CPC/2015. Assim, vale o entendimento do STJ sobre a matéria, pois, segundo o art. 105 da Carta Magna, é esta Corte a responsável pela uniformização da interpretação da legislação infraconstitucional no país.

15. A propósito, o STF, ao julgar o Tema 799 da Repercussão Geral (ARE 722.421/MG, j. em 19/3/2015), já firmou expressamente que a questão não é constitucional e deve, portanto, ser deslindada nos limites da legislação infraconstitucional, o que foi feito com bastante clareza pelo legislador ao trazer a nova redação do art. 115, inc. II, da Lei n. 8.213/1991. No mesmo sentido, vide o RE 1.202.649 AgR (relator Ministro Celso de Mello, Segunda Turma, j. em 20/12/2019), e o RE 1.152.302 AgR (relator Ministro Marco Aurélio, Primeira Turma, j. em 28/5/2019).

16. Ao propor a questão de ordem, esta Relatoria citou as seguintes particularidades processuais que supostamente seriam aptas a ensejar uma consideração específica quanto à possibilidade de revisão do entendimento firmado no Tema 692/STJ: a) tutela de urgência concedida de ofício e não recorrida; b) tutela de urgência concedida a pedido e não recorrida; c) tutela de urgência concedida na sentença e não recorrida, seja por agravo de instrumento, na sistemática processual anterior do CPC/1973, seja por pedido de suspensão, conforme o CPC/2015; d) tutela de urgência concedida initio litis e não recorrida; e) tutela de urgência concedida initio litis, cujo recurso não foi provido pela segunda instância; f) tutela de urgência concedida em agravo de instrumento pela segunda instância; g) tutela de urgência concedida em primeiro e segundo graus, cuja revogação se dá em razão de mudança superveniente da jurisprudência então existente.

17. Quanto a elas, note-se que se trata basicamente do momento em que foi concedida e/ou revogada a tutela de urgência, se logo no início do feito, se na sentença, se na segunda instância, ou se apenas no STF ou no STJ. A ideia subjacente é que, em algumas hipóteses, a tutela de urgência já estaria, de certa forma, incorporada ao patrimônio jurídico da parte autora, e sua revogação poderia resultar em injustiça no caso concreto.

18. Tais situações, entretanto, são tratadas pela lei da mesma forma, não merecendo distinção do ponto de vista normativo. Ou seja, em qualquer desses casos, a tutela de urgência não deixa de ser precária e passível de modificação ou revogação a qualquer tempo, o que implicará o retorno ao estado anterior à sua concessão.

19. Situação diversa é a da tutela de urgência cuja revogação se dá em razão de mudança superveniente da jurisprudência então dominante. Nesses casos, a superação do precedente deverá ser acompanhada da indispensável modulação dos efeitos, a juízo do Tribunal que está promovendo a alteração jurisprudencial, como determina o art. 927, § 3º, do CPC. Assim, como diz a norma, o próprio juízo de superação "de jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores ou daquela oriunda de julgamento de casos repetitivos" deve ser acompanhado da modulação dos efeitos da alteração no interesse social e no da segurança jurídica. Dessa forma, uma eventual guinada jurisprudencial não resultará, em princípio, na devolução de valores recebidos por longo prazo devido à cassação de tutela de urgência concedida com base em jurisprudência dominante à época em que deferida, bastando que o tribunal, ao realizar a superação, determine a modulação dos efeitos.

20. Por fim, não há que se falar em modulação dos efeitos do julgado no caso em tela, uma vez que não se encontra presente o requisito do art. 927, § 3º, do CPC. Isso porque, no caso sob exame, não houve alteração, mas sim reafirmação da jurisprudência dominante do STJ.

21. Questão de ordem julgada no sentido da reafirmação da tese jurídica, com acréscimo redacional para ajuste à nova legislação de regência, nos termos a seguir: "A reforma da decisão que antecipa os efeitos da tutela final obriga o autor da ação a devolver os valores dos benefícios previdenciários ou assistenciais recebidos, o que pode ser feito por meio de desconto em valor que não exceda 30% (trinta por cento) da importância de eventual benefício que ainda lhe estiver sendo pago.". (Pet n. 12.482/DF, relator Ministro Og Fernandes, Primeira Seção, DJe de 24/5/2022.) Confira-se ainda: PROCESSUAL CIVIL. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE. VALORES PAGOS EM RAZÃO DE DECISÃO JUDICIAL PRECÁRIA. RESTITUIÇÃO AO ERÁRIO. CABIMENTO. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A DECISÃO ATACADA. APLICAÇÃO DE MULTA. ART. 1.021, § 4º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. DESCABIMENTO. I - Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada em 09.03.2016, o regime recursal será determinado pela data da publicação do provimento jurisdicional impugnado. In casu, aplica-se o Código de Processo Civil de 2015. II - É legítima a restituição ao Erário de valores pagos a título de benefício previdenciário em razão do cumprimento de decisão judicial precária, posteriormente cassada em segundo grau de

jurisdição. III - O Agravante não apresenta, no agravo, argumentos suficientes para desconstituir a decisão recorrida. IV - Em regra, descabe a imposição da multa prevista no art. 1.021, § 4º, do Código de Processo Civil de 2015 em razão do mero desprovimento do Agravo Interno em votação unânime, sendo necessária a configuração da manifesta inadmissibilidade ou improcedência do recurso a autorizar sua aplicação, o que não ocorreu no caso. V - Agravo Interno improvido. (AgInt no REsp n. 2.063.466/SP, rel. Min. Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em 13/11/2023, DJe de 17/11/2023; grifei.) PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. SERVIDOR ESTADUAL. ADICIONAL DE INSALUBRIDADE. EXTINÇÃO DA EXECUÇÃO. RESTITUIÇÃO DOS VALORES. PRESCRIÇÃO. MATÉRIA FÁTICA-PROBATÓRIA. SÚMULA 7/STJ. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL. ANÁLISE PREJUDICADA.

1. O recorrente sustenta que "o v. Acórdão recorrido violou o artigo 1º do Decreto Federa! nº 20.910/32, visto que já se passaram mais de cinco anos contados da sentença de extinção da execução promovida na ação de procedimento comum, razão pela qual os agentes da Ré não podiam mais realizar a cobrança administrativa e muito menos a judicial" (fl. 232, e-STJ).

2. O Tribunal de origem, ao dirimir a controvérsia, assim se pronunciou: "o direito da Fazenda em exigir a devolução do valor pago ao autor surgiu com a inversão do julgado favorável a ele (autor) e que transitou em julgado em 30/05/2003 (fls.81/82). A partir daí iniciou-se o prazo para que o Erário tentasse reaver o pagamento indevido, o que efetivamente ocorreu em 31/03/2006, com o pedido dirigido ao Juízo da causa, que o acolheu em 28/07/2008 (fls. 83/86), e desde então a FESP tenta, em vão, o ressarcimento, de sorte a afastar inclusive a prescrição intercorrente (Súmula 314 STJ), porque não se está diante de desídia do órgão público." (fls.172/173).

3. Para o acolhimento da tese proposta, seria necessário proceder à minuciosa análise do acervo probatório dos autos, o que excederia as razões colacionadas no acórdão recorrido. Dessa forma, inviável alterar a conclusão do acórdão recorrido acerca da ocorrência da prescrição, tendo em vista o óbice da Súmula 7/STJ.

4. A título de esclarecimento, ressalto que a Primeira Seção, no julgamento do Recurso Especial Representativo da Controvérsia 1.401.560/MT, definiu que é legítima a restituição de valores percebidos pelo segurado, em virtude do cumprimento de decisão judicial precária posteriormente revogada, independentemente da natureza alimentar da verba e da boa-fé do beneficiário.

5. Fica prejudicada a análise da divergência jurisprudencial quando a tese sustentada já foi afastada no exame do Recurso Especial pela alínea "a" do permissivo constitucional.

6. Recurso Especial não conhecido. (REsp n. 1.721.238/SP, rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe de 22/11/2018; grifei) Contudo, no caso dos autos, o Tribunal de origem afastou a incidência da tese firmada no presente precedente, considerando a desnecessidade de devolução de valores recebidos de boa-fé, em razão de sua natureza alimentar. Dessa forma, por estar em dissonância do entendimento desta Corte Superior, deve ser reformado o aresto proferido na origem. Diante do exposto, conheço do recurso especial e dou-lhe parcial provimento para determinar a devolução dos valores percebidos pelo recorrido em razão da antecipação de tutela posteriormente revogada, nos termos do Tema 692 do STJ. Publique-se. Intimem-se.

EMENTA PREVIDENCIÁRIO. RECURSO ESPECIAL. APLICABILIDADE DO CPC/2015. ART. 1.022 DO CPC. NÃO OCORRÊNCIA. DEVOLUÇÃO DE VALORES RECEBIDOS A TÍTULO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA POSTERIORMENTE REVOGADA. REPETIBILIDADE. ENTENDIMENTO FIRMADO NO RESP N. 1.401.560/MT (TEMA 692), JULGADO SOB O RITO DOS RECURSOS REPETITIVOS E REAFIRMADA NA QUESTÃO DE ORDEM NA PET. N. 12.482/DF. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO.

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Authorities

Authorities used by the court

Cases, legislation, regulations, and constitutional provisions identified in the available record.

REsp n. 1.401.560/MT (Tema 692/STJ)

Case cited

Pet. n. 12.482/DF

Case cited

AgInt no REsp n. 2.063.466/SP

Case cited

REsp n. 1.721.238/SP

Case cited

ARE 722.421/MG (Tema 799/STF)

Case cited

RE 1.202.649 AgR

Case cited

RE 1.152.302 AgR

Case cited

art. 105, inciso III, alínea a, da CF

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 535 do CPC/1973

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 1.022 do CPC/2015

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

arts. 876, 884 e 885 do Código Civil

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 115, inciso II, da Lei n. 8.213/1991

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

Lei n. 13.846/2019

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 927, § 3º, do CPC/2015

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 1.040, inciso II, do CPC

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

art. 1.021, § 4º, do CPC/2015

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

Súmula 7/STJ

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

Súmula 314/STJ

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

Enunciado Administrativo 3

Legislation

Legislation referenced in the available case record.

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